Segue um belíssimo texto escrito após a intervenção do Prof. Dr. Pedro Demo no XV SEU (Seminário de Extensão da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE)!
“Hoje ninguém mais quer estudar. É tudo decoreba crua.” “O professor faz na escola o que fizeram com ele.” “A escola engana o aluno todo dia.” “A universidade não é um lugar pra aprender, mas para ter aula. Aula não faz falta, mas no Brasil só se tem aula – a coisa menos importante”. “O aluno passa 4 anos num curso e não aprende a produzir conhecimento, que é a habilidade das habilidades.” Ao fim, “ganha um diploma velho, pra trabalhar no século passado”. Afirmações assustadoras, não? Para os mais familiarizados com a Educação brasileira e seus teóricos mais ilustres, nem tanto. Para estes, nem é preciso dizer que essas palavras são “autocitações” do velho Pedro Demo de guerra, que, mais uma vez, meteu o “pé na porta” da deseducação nacional e surpreendeu o público presente no XV Seminário de Extensão Universitária da Unioeste, na noite do dia 14 de março, no campus de Marechal Rondon (PR).
Autocitações, porque há tempos Pedro Demo repete o que diz sem repetir-se: a universidade e a escola devem educar pela pesquisa – e o docente deve ser capaz de exercer a autoria na produção do conhecimento e na formação do estudante, garantindo que este aprenda a aprender. Autocitações porque, igualmente, Demo sempre retoma questões já abordadas em textos anteriores. Afinal, desde Herrschaft und Geschichte: zur politischen Gesellschaftstheorie Freyers und Marcuses, a tese de seu doutoramento em Sociologia pela Universidade de Saarbrücken (Alemanha), até Aprender como autor (São Paulo: Atlas, 2015) já são pelo menos 97 livros publicados, sempre a reexaminar conceitos e efetuar novas leituras, reflexão e escrita. Pedro é pedra filosofal, nascido em Pedras Grandes (SC), e demo não mortal, que nos obriga a reconhecê-lo como uma “pedra no sapato”: questiona ações e omissões, provoca um abalo sísmico em arraigadas certezas e nos faz cair em tentação, porque nos joga ao chão das desorientações, o que, ao fim e em contrapartida, não nos mata, mas fortalece, no desafio de sermos professores-autores e seres de fato pensantes.
A contundência de suas afirmações é punhal certeiro no coração das mazelas: “A universidade não produz educação científica, que tem efeito emancipatório, nem permite ao aluno a grande experiência da autoria, com a produção de conteúdo próprio”; “é típica de 1900, caduca, e só repassa conteúdos”; “a aula é surrada, copiada para ser copiada, e só o MEC acredita nelas”; o PNE (Plano Nacional de Educação) “é mirabolante” e o próprio aluno abre mão do sagrado “direito de aprender”. Não poupa ninguém, nem deixa pedra sobre pedra: tal é a “Pátria Educadora” – “uma piada, devido ao mundo surreal da educação”. O que não se traduz por mera crítica ao governo, nem elogio à oposição. A mesa, composta pelos professores Remi Schorn, pró-reitor de Extensão da Unioeste, Paulo José Koling, diretor do campus de Cândido Rondon, e Gustavo André Borges, coordenador local do evento, efetuou a mediação, ponderação e contemporização entre público e professor autores. As intervenções, sem defensivismos, fizeram a necessária defesa de que, em boa medida e dentro das condições “normais” de temperatura e pressão, apesar das defasagens e de todas as falhas, os professores tentam exercer tal autoria em suas aulas. Longe do ideal, mas dentro do possível. A plateia, ciente de que o conhecimento muda o mundo e a Unioeste se insere onde vive sem uma pretensa mão única que leve o conhecimento à sociedade, mas que dialoga com o binômio teoria/prática e busca também o saber-fazer-saber, em boa medida, retificou as pré-conclusões generalizantes de que as instituições de ensino tão somente veiculam um “cemitério de conhecimentos mortos”. Até porque os tempos atuais vivem a guerra de todos os tempos e mesmo o grande Sócrates exclamava há 470 anos a.C.: “Nossa juventude ama a luxúria, tem maus modos, despreza a autoridade dos pais e não respeita os mais velhos”. Pedro Demo, afinal, foi escolhido a dedo para dizer o quase todo mundo (não) queria ouvir.
Em tempos de homens de pedra, porém, convém ter o coração também de pedra. E de Pedro, que acentuou a necessidade maior da educação: “cuidar do professor”, no intento de fazê-lo deixar de ser só “auleiro”, instituir a ideia de que “a aprendizagem é a autoaprendizagem”, e aprender a estudar, pesquisar e produzir os conhecimentos a serem levados à sala de aula. E mais: a instigar o aluno ao trabalho autopoiético, cônscio e crítico de produzir um conhecimento sempre em xeque, com “desconfiômetro”, permanentemente aberto a questionamentos e mudanças e, além disso, capaz de respeitar a si e aos outros conhecimentos.
Enfim, foi-se o Pedro – e restaram as pedras. E nós, em nosso trabalho de deseducação, no intento de seguir as palavras do mestre de que “a educação precisa formar rebeldes, pois é deles que precisamos para mudar a sociedade”, vamos tocando em frente, atentos, porém, a não pôr a mão – sem cuidados – entre duas (ou mais) pedras. É claro que nem tudo são flores, mas nem tudo é, também, terra arrasada. Daí a escolha de não optar pelo simples 8 ou 80. É preciso cuidar para não jogar a criança junto com a água do banho. Há muito por fazer, mas também há muitas ações e experiências merecedoras de respeito, expansão e aprofundamento. Diriam os mais românticos que é mais fácil conquistar uma nova amada a cada dia, do que a mesma mulher todos os dias. Por “extensão”, talvez seja mais fácil ser brilhante num evento isolado do que dar um show a cada hora em turnos, turmas e escolas diferentes no dia a dia escolar. Assim, seguimos a jogar pedras pra cima e em nossas vidraças, na certeza de termos uma boa espada de Dâmocles sobre nossas cabeças e sobressaltos capazes de nos embalar sem deixar dormir, cientes de que somos pedra carentes não de limo, mas de lima, na difícil tarefa de aprender que viver não é preciso.
Carlos Silveira - PEE - Programa de Educação Especial