segunda-feira, 9 de junho de 2014

Resumo livro: A Filosofia explica as grandes questões da humanidade, Clóvis de Barros Filho & Júlio Pompeu

A Filosofia explica as grandes questões da humanidade, Clóvis de Barros Filho & Júlio Pompeu




Ética, para uma vida toda

Moral, reflexões para viver
            Preste atenção agora. Aqui está o pulo do gato. De acordo com a teoria kantiana, a origem do mal estaria no encontro da sensibilidade, apetites e pulsões com a consciência moral, com a razão prática. E qual seria o problema nesse encontro entre o que sentimos e o que pensamos? O mal estaria na inversão da hierarquia legítima entre ambos. Numa defasagem entre o que deveria acontecer e o que acaba acontecendo.
            Ética e moral têm mais a ver com problematização da nossa convivência do que propriamente com um gabarito de respostas certas apresentado por um professor.

Liberdade, a definição do homem e suas conseqüências
            “Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser.” Johann Goethe
            Como acabamos de ver, durante séculos o homem acreditou que o universo seria cósmico. E que esse Cosmos seria a grande referência ética. Definidor do certo e do errado na hora de escolher a vida. Com o pensamento cristão – um Deus transcendente, criador de tudo, inclusive do homem, tem para nós missão e talentos – e a referência ética, passou a valer a vontade de Deus ou aquilo que ele pretende para nós, com o eixo essencial do que é ou não pecado na hora de escolher a vida.
            Estas duas referências sofreram forte abalo no começo da modernidade. Com a revolução científica, descobrimos que o universo não é cósmico. Não é perfeitamente harmônico, nem ordenado. É sem sentido, sem direção, sem finalidades pré-determinadas. Quanto à vontade de Deus, fragmentou-se nas reformas religiosas.
            Segundo ele (Kant), não é o fato de você ter um inegável talento, proporcionado pela sua natureza, que o torna moralmente excelente. O que realmente importa é o uso que fará deste talento. E sobre ele, é você quem decide, trata-se de uma questão de liberdade para resolver o que fazer com as aptidões que são as nossas. As de cada um.

Identidade, quem somos nós?
            “Por vezes, somos tão diferentes de nós mesmos como dos outros.” François La Rochefoucauld
            Vivemos em relação. E o mundo com o qual nos relacionamos não sai da nossa frente e nos afeta ininterruptamente. Ora, se nos afeta, nos transforma. Portanto, nada em nós permanece idêntico. Fica difícil achar alguma identidade no fluxo.
            Essa ilusão do eu parece pressupor uma repetição possível, habitualmente garantidora, a qualquer interlocutor, da existência de alguém, de alguém que se chama X ou Y, que faz alguma coisa, que gosta de fazer alguma coisa, que é especialista nisso ou naquilo, que detesta um determinado ambiente, que se dá bem com certo tipo de pessoa, etc. Por isso, toda crise identitária acaba sendo uma crise de permanência.
            Por isso o critério da identidade pessoal para Locke deve ser a memória. De acordo com o que propõe. Essa consciência acompanha sempre nossas sensações e nossas percepções presentes. É por aí que cada um é para si mesmo o que chama de si mesmo.
            Porque a consciência acompanha sempre o pensamento.
            É nisso e só nisso que consiste a identidade pessoal.

Poder, uma arte de relações e reações
            São formas de legitimação do poder a partir da demonstração das justificativas que credenciam determinada pessoa ou grupo ao merecimento de dominar os demais. Isto porque são especiais ou diferentes, porque são mais dignos que outros. Mas todos estes discursos também têm um mesmo público-alvo, um target, como o pessoal da publicidade gosta de dizer. Os súditos. É na crença dos súditos que qualquer um destes discursos torna-se eficiente para fundamentar um modo qualquer de exercício do poder.
            Assim, a realeza do rei que se diz escolhido por deus só é efetiva se seu súdito acreditar nas coisas do divino, temê-lo e igualmente acreditar que o próprio Deus realmente escolheu o coroado para governá-lo. Da mesma forma, só a nossa crença na democracia ou na eficiência das universidades é que sustentam a respeitabilidade e o poder de um deputado ou de um professor.
            Nicolau Maquiavel percebeu isso na virada do século XV para o XVI. Ele não pensou o poder a partir de uma perspectiva de legitimação, o que sob seu ponto de vista não faria sentido, pois todo discurso de legitimação nada mais é que uma fala dirigida aos súditos e que torna possível sua dominação. Esta forma de pensar o poder rendeu-lhe não só a consagração filosófica, como também uma condenação moral histórica. Tornou-se adjetivo pejorativo. Maquiavélico é ser ardiloso, traiçoeiro, perigoso. Coisa de mafioso que usurpa poder para usá-lo de forma ilegítima.
            Nicolau Maquiavel percebeu isso na virada do século XV para o XVI. Ele não pensou o poder a partir de uma perspectiva de legitimação, o que sob seu ponto de vista não faria sentido, pois todo discurso de legitimação nada mais é que uma fala dirigida aos súditos e que torna possível sua dominação. Esta forma de pensar o poder rendeu-lhe não só a consagração filosófica, como também uma condenação moral histórica. Tornou-se adjetivo pejorativo. Maquiavélico é ser ardiloso, traiçoeiro, perigoso. Coisa de mafioso que usurpa poder para usá-lo de forma ilegítima.
            Outro filósofo também pagou caro por contrariar, simultaneamente, todos os discursos de legitimação do poder: Bento Espinosa. No Tratado Teológico Político, ele afirma que todas as religiões são apenas instituições políticas e que, como tais, servem somente para legitimar formas de dominação. Lançou as bases da moderna teologia, na qual os textos sagrados das religiões são lidos como discursos datados, de uma época específica, dirigidos para um povo específico e formulados por um líder. Por força de suas ideias, Bento de Espinosa ganhou a excomunhão. Tornou-se maldito entre todas as grandes religiões.
            Os discursos de legitimação do poder têm sua utilidade para o governante, na medida em que ajudam a manter os governados sob controle, submetendo-os pela crença em sua realeza. Mas Maquiavel deixa claro o quanto é perigoso que o governante acredite neste tipo de poder. Se uma filosofia legitimadora do poder é discurso dirigido aos súditos, para os governantes o melhor seria atentar para os discursos que explicam como o poder é obtido e mantido. Uma perspectiva sociológica, portanto, lhes cairia melhor. Mas por quê?
            Simples. Imagine uma mulher bonita que, desde a infância, é chamada de princesa, lindinha, teteiazinha do papai e outras melosidades do gênero. Imagine se essa menina realmente acreditasse que é bonita por natureza ou graça divina e que, portanto, sua beleza inquestionável durará para sempre. Não verá necessidade em cultivar a própria beleza. Desleixada, será tida como feia, mas não acreditará no que lhe dizem. “São cegos que não vêem que sou princesa!”
            Este exemplo pode parecer meio absurdo, mas permite perceber, em primeiro lugar, que tem gente que é assim mesmo. Em segundo, ele fica menos estranho se imaginarmos alguém poderoso em vez de belo. Quantos não perderam o poder porque subestimaram a situação em que se encontravam? Quantos não caíram do cavalo porque superestimaram as próprias forças, o próprio poder? A história está repleta de exemplos assim.
            O poder é algo que se conquista e se mantém com muito esforço. Não é uma dádiva natural, como os discursos de espírito para ser vitorioso no jogo da dominação. Disposição que Maquiavel chamou de virtu.
            Maquiavel: “Os fins justificam os meios”. Esta frase é interpretada como se Maquiavel tivesse dito que, tendo em conta o que se deseja, tudo é válido. Mas, é preciso frisar que ele não considerava que o ideal pudesse qualificar alguma atitude. Não era um idealista e nem tampouco proferiu a tal frase. Ela é uma livre interpretação, dentre tantas outras possíveis, de um trecho que não encontra tradução literal do italiano do começo do século XVI para o português. Em cada tradução de O Príncipe a frase é dita de maneira diferente. Para melhor julgá-la é preciso saber que raciocínio que envolve.
           
Dominação, Disciplinados e submissos
            “Um homem não pode montar nas suas costas a não ser que elas se inclinem.” Martin Luther King
            Foucault nos ensinou a olhar para outro lado quando se trata de compreender as relações de poder, a não prestar tanta atenção nos símbolos, rituais, liturgias, personalidades, mas no que se faz e nas desculpas para fazer o que se faz quando se domina. Ele nos indicou como observar e tentar compreender a forma como pensam não os líderes, mas os liderados. É na obediência submissa do liderado que o poder se sustenta.
            Mas, então, se o poder é uma relação que tem como condição determinados saberes e depende das formas do dominante e do dominado entenderem e representarem seus papéis em relação a ele, as estratégias para conquista e manutenção do poder não se resumem apenas às regras de como subjugar a outros. A arte da guerra não é apenas a lição fundamental de como exercer poder sobre os outros. Ela pode nos ajudar a vencer os inimigos, a disputar as posições de prestígio. Mas Foucault nos mostrou que as posições de prestígio não são o único troféu a ser disputado. Há outra batalha nas lutas por poder. Mais sutil que a disputa por cargos e privilégios. Ele fala da luta pelos saberes. Pela consagração das condições de possibilidade de dominação.
            “Prova aí. Está uma delícia. Você vai gostar!” Por que a insistência? Por que sempre tentamos compartilhar com quem gostamos as coisas que nos alegram? Por puro espírito de dominação. Disfarçada de apreço, a difusão do gosto é uma das mais sutis e eficazes formas de dominação sobre os outros.
            O campo de batalha destas relações de poder é o conjunto de pessoas que vive em torno de práticas e relações compartilhadas, cujo sentidos e valores específicos são conhecidos e comungados por todos que pertençam ao grupo. Este era o caso dos enófilos.
            Em cada campo, há os troféus de consagração que indicam os que têm e os que não têm a admiração do grupo, os que são só inveja e os que exercem poder sobre os outros.

A justiça e a lei, do sentimento à ideia
            “Justiça: mais vale deixar-se roubar do que usar espantalhos; tal é o meu gosto. E é sempre questão de gosto, nada mais além de questão de gosto.” Friedrich Nietzsche
             
Virtude, o que faz o homem justo
            “O homem que é firme, paciente, simples, natural e tranqüilo está perto da virtude.” Confúcio

            Justiça, portanto, é equilíbrio, não propriamente entre bens e entre malefícios e benefícios, mas sobretudo o equilíbrio entre as virtudes. Equilíbrio que, se mantido, torna o homem capaz de bem reproduzi-lo no mundo, distribuindo e bem equacionando benefícios e malefícios de forma prudente, corajosa e temperada.


Nenhum comentário:

Postar um comentário