A
Filosofia explica as grandes questões da humanidade, Clóvis de Barros Filho
& Júlio Pompeu
Ética,
para uma vida toda
Moral,
reflexões para viver
Preste atenção agora. Aqui está o pulo do gato. De acordo
com a teoria kantiana, a origem do mal estaria no encontro da sensibilidade,
apetites e pulsões com a consciência moral, com a razão prática. E qual seria o
problema nesse encontro entre o que sentimos e o que pensamos? O mal estaria na
inversão da hierarquia legítima entre ambos. Numa defasagem entre o que deveria
acontecer e o que acaba acontecendo.
Ética e moral têm mais a ver com problematização da nossa
convivência do que propriamente com um gabarito de respostas certas apresentado
por um professor.
Liberdade,
a definição do homem e suas conseqüências
“Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre
sem o ser.” Johann Goethe
Como acabamos de ver, durante séculos o homem acreditou
que o universo seria cósmico. E que esse Cosmos seria a grande referência
ética. Definidor do certo e do errado na hora de escolher a vida. Com o
pensamento cristão – um Deus transcendente, criador de tudo, inclusive do
homem, tem para nós missão e talentos – e a referência ética, passou a valer a
vontade de Deus ou aquilo que ele pretende para nós, com o eixo essencial do
que é ou não pecado na hora de escolher a vida.
Estas duas referências sofreram forte abalo no começo da
modernidade. Com a revolução científica, descobrimos que o universo não é
cósmico. Não é perfeitamente harmônico, nem ordenado. É sem sentido, sem
direção, sem finalidades pré-determinadas. Quanto à vontade de Deus,
fragmentou-se nas reformas religiosas.
Segundo ele (Kant), não é o fato de você ter um inegável
talento, proporcionado pela sua natureza, que o torna moralmente excelente. O
que realmente importa é o uso que fará deste talento. E sobre ele, é você quem
decide, trata-se de uma questão de liberdade para resolver o que fazer com as
aptidões que são as nossas. As de cada um.
Identidade,
quem somos nós?
“Por vezes, somos tão diferentes de nós mesmos como dos
outros.” François La Rochefoucauld
Vivemos em relação. E o mundo com o qual nos relacionamos
não sai da nossa frente e nos afeta ininterruptamente. Ora, se nos afeta, nos
transforma. Portanto, nada em nós permanece idêntico. Fica difícil achar alguma
identidade no fluxo.
Essa ilusão do eu parece pressupor uma repetição
possível, habitualmente garantidora, a qualquer interlocutor, da existência de
alguém, de alguém que se chama X ou Y, que faz alguma coisa, que gosta de fazer
alguma coisa, que é especialista nisso ou naquilo, que detesta um determinado
ambiente, que se dá bem com certo tipo de pessoa, etc. Por isso, toda crise identitária
acaba sendo uma crise de permanência.
Por isso o critério da identidade pessoal para Locke deve
ser a memória. De acordo com o que propõe. Essa consciência acompanha sempre
nossas sensações e nossas percepções presentes. É por aí que cada um é para si
mesmo o que chama de si mesmo.
Porque a consciência acompanha sempre o pensamento.
É nisso e só nisso que consiste a identidade pessoal.
Poder,
uma arte de relações e reações
São formas de legitimação do poder a partir da
demonstração das justificativas que credenciam determinada pessoa ou grupo ao
merecimento de dominar os demais. Isto porque são especiais ou diferentes,
porque são mais dignos que outros. Mas todos estes discursos também têm um
mesmo público-alvo, um target, como o pessoal da publicidade gosta de dizer. Os
súditos. É na crença dos súditos que qualquer um destes discursos torna-se
eficiente para fundamentar um modo qualquer de exercício do poder.
Assim, a realeza do rei que se diz escolhido por deus só
é efetiva se seu súdito acreditar nas coisas do divino, temê-lo e igualmente
acreditar que o próprio Deus realmente escolheu o coroado para governá-lo. Da
mesma forma, só a nossa crença na democracia ou na eficiência das universidades
é que sustentam a respeitabilidade e o poder de um deputado ou de um professor.
Nicolau Maquiavel percebeu isso na virada do século XV
para o XVI. Ele não pensou o poder a partir de uma perspectiva de legitimação,
o que sob seu ponto de vista não faria sentido, pois todo discurso de
legitimação nada mais é que uma fala dirigida aos súditos e que torna possível
sua dominação. Esta forma de pensar o poder rendeu-lhe não só a consagração
filosófica, como também uma condenação moral histórica. Tornou-se adjetivo
pejorativo. Maquiavélico é ser ardiloso, traiçoeiro, perigoso. Coisa de mafioso
que usurpa poder para usá-lo de forma ilegítima.
Nicolau Maquiavel percebeu isso na virada do século XV
para o XVI. Ele não pensou o poder a partir de uma perspectiva de legitimação,
o que sob seu ponto de vista não faria sentido, pois todo discurso de
legitimação nada mais é que uma fala dirigida aos súditos e que torna possível
sua dominação. Esta forma de pensar o poder rendeu-lhe não só a consagração
filosófica, como também uma condenação moral histórica. Tornou-se adjetivo
pejorativo. Maquiavélico é ser ardiloso, traiçoeiro, perigoso. Coisa de mafioso
que usurpa poder para usá-lo de forma ilegítima.
Outro filósofo também pagou caro por contrariar,
simultaneamente, todos os discursos de legitimação do poder: Bento Espinosa. No
Tratado Teológico Político, ele afirma que todas as religiões são apenas
instituições políticas e que, como tais, servem somente para legitimar formas
de dominação. Lançou as bases da moderna teologia, na qual os textos sagrados
das religiões são lidos como discursos datados, de uma época específica,
dirigidos para um povo específico e formulados por um líder. Por força de suas
ideias, Bento de Espinosa ganhou a excomunhão. Tornou-se maldito entre todas as
grandes religiões.
Os discursos de legitimação do poder têm sua utilidade
para o governante, na medida em que ajudam a manter os governados sob controle,
submetendo-os pela crença em sua realeza. Mas Maquiavel deixa claro o quanto é
perigoso que o governante acredite neste tipo de poder. Se uma filosofia
legitimadora do poder é discurso dirigido aos súditos, para os governantes o
melhor seria atentar para os discursos que explicam como o poder é obtido e
mantido. Uma perspectiva sociológica, portanto, lhes cairia melhor. Mas por
quê?
Simples. Imagine uma mulher bonita que, desde a infância,
é chamada de princesa, lindinha, teteiazinha do papai e outras melosidades do
gênero. Imagine se essa menina realmente acreditasse que é bonita por natureza
ou graça divina e que, portanto, sua beleza inquestionável durará para sempre.
Não verá necessidade em cultivar a própria beleza. Desleixada, será tida como
feia, mas não acreditará no que lhe dizem. “São cegos que não vêem que sou
princesa!”
Este exemplo pode parecer meio absurdo, mas permite
perceber, em primeiro lugar, que tem gente que é assim mesmo. Em segundo, ele
fica menos estranho se imaginarmos alguém poderoso em vez de belo. Quantos não
perderam o poder porque subestimaram a situação em que se encontravam? Quantos
não caíram do cavalo porque superestimaram as próprias forças, o próprio poder?
A história está repleta de exemplos assim.
O poder é algo que se conquista e se mantém com muito
esforço. Não é uma dádiva natural, como os discursos de espírito para ser
vitorioso no jogo da dominação. Disposição que Maquiavel chamou de virtu.
Maquiavel: “Os fins justificam os meios”. Esta frase é
interpretada como se Maquiavel tivesse dito que, tendo em conta o que se
deseja, tudo é válido. Mas, é preciso frisar que ele não considerava que o
ideal pudesse qualificar alguma atitude. Não era um idealista e nem tampouco
proferiu a tal frase. Ela é uma livre interpretação, dentre tantas outras
possíveis, de um trecho que não encontra tradução literal do italiano do começo
do século XVI para o português. Em cada tradução de O Príncipe a frase é dita
de maneira diferente. Para melhor julgá-la é preciso saber que raciocínio que
envolve.
Dominação,
Disciplinados e submissos
“Um homem não pode montar nas suas costas a não ser que
elas se inclinem.” Martin Luther King
Foucault nos ensinou a olhar para outro lado quando se
trata de compreender as relações de poder, a não prestar tanta atenção nos
símbolos, rituais, liturgias, personalidades, mas no que se faz e nas desculpas
para fazer o que se faz quando se domina. Ele nos indicou como observar e
tentar compreender a forma como pensam não os líderes, mas os liderados. É na
obediência submissa do liderado que o poder se sustenta.
Mas, então, se o poder é uma relação que tem como
condição determinados saberes e depende das formas do dominante e do dominado
entenderem e representarem seus papéis em relação a ele, as estratégias para
conquista e manutenção do poder não se resumem apenas às regras de como
subjugar a outros. A arte da guerra não é apenas a lição fundamental de como
exercer poder sobre os outros. Ela pode nos ajudar a vencer os inimigos, a
disputar as posições de prestígio. Mas Foucault nos mostrou que as posições de
prestígio não são o único troféu a ser disputado. Há outra batalha nas lutas
por poder. Mais sutil que a disputa por cargos e privilégios. Ele fala da luta
pelos saberes. Pela consagração das condições de possibilidade de dominação.
“Prova aí. Está uma delícia. Você vai gostar!” Por que a
insistência? Por que sempre tentamos compartilhar com quem gostamos as coisas
que nos alegram? Por puro espírito de dominação. Disfarçada de apreço, a
difusão do gosto é uma das mais sutis e eficazes formas de dominação sobre os outros.
O campo de batalha destas relações de poder é o conjunto
de pessoas que vive em torno de práticas e relações compartilhadas, cujo
sentidos e valores específicos são conhecidos e comungados por todos que
pertençam ao grupo. Este era o caso dos enófilos.
Em cada campo, há os troféus de consagração que indicam
os que têm e os que não têm a admiração do grupo, os que são só inveja e os que
exercem poder sobre os outros.
A
justiça e a lei, do sentimento à ideia
“Justiça: mais vale deixar-se roubar do que usar
espantalhos; tal é o meu gosto. E é sempre questão de gosto, nada mais além de
questão de gosto.” Friedrich Nietzsche
Virtude,
o que faz o homem justo
“O homem que é firme, paciente, simples, natural e
tranqüilo está perto da virtude.” Confúcio
Justiça, portanto, é equilíbrio, não propriamente entre
bens e entre malefícios e benefícios, mas sobretudo o equilíbrio entre as
virtudes. Equilíbrio que, se mantido, torna o homem capaz de bem reproduzi-lo
no mundo, distribuindo e bem equacionando benefícios e malefícios de forma
prudente, corajosa e temperada.
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