domingo, 20 de abril de 2014

O que é o homem Vitruviano?


Com certeza já deve tê-lo visto em livros, revistas, encartes de CD, internet, ou outra mídia qualquer. Mas não é uma simples ilustração, há algo valioso contido no mesmo.
Este desenho foi encontrado no bloco de notas de Leonardo da Vinci e feito pelo próprio por volta de 1490 baseando-se no conceito exposto na obra “Os dez livros da Arquitetura”, escrito pelo arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio. Desta forma, o homem descrito por Vitruvius apresenta-se como um modelo ideal para o ser humano, cujas proporções são perfeitas, segundo o ideal clássico de beleza.
Originalmente, Vitruvius apresentou o cânone tanto de forma textual (descrevendo cada proporção e suas relações) quanto através de desenhos. Porém, à medida que os documentos originais perdiam-se e a obra passava a ser copiada durante a Idade Média, a descrição gráfica se perdeu. Desta forma, com a redescoberta dos textos clássicos durante o Renascimento, uma série de artistas, arquitetos e tratadistas dispuseram-se a interpretar os textos vitruvianos a fim de produzir novas representações gráficas. Dentre elas, a mais famosa e (hoje) difundida é a de Leonardo da Vinci.
 Este desenho descreve uma figura masculina desnuda separadamente e simultaneamente em duas posições sobrepostas com os braços inscritos num círculo e num quadrado. A cabeça é calculada como sendo um décimo da altura total. Às vezes, o desenho e o texto são chamados de Cânone das Proporções.
O desenho actualmente faz parte da colecção/coleção da Gallerie dell’Accademia (Galeria da Academia) em Veneza, Itália.
Seguindo este conceito de beleza o arquiteto Marcus Vitruvius Pollio descreve o corpo humano da seguinte maneira:
  • um palmo é o comprimento de quatro dedos
  • um pé é o comprimento de quatro palmos
  • um côvado é o comprimento de seis palmos
  • um passo são quatro côvados
  • a altura de um homem é quatro côvados
  • “erit eaque mensura ad manas pansas”
  • o comprimento dos braços abertos de um homem (envergadura dos braços) é igual à sua altura
  • a distância entre a linha de cabelo na testa e o fundo do queixo é um décimo da altura de um homem
  • a distância entre o topo da cabeça e o fundo do queixo é um oitavo da altura de um homem
  • a distância entre o fundo do pescoço e a linha de cabelo na testa é um sexto da altura de um homem
  • o comprimento máximo nos ombros é um quarto da altura de um homem
  • a distância entre a o meio do peito e o topo da cabeça é um quarto da altura de um homem
  • a distância entre o cotovelo e a ponta da mão é um quarto da altura de um homem
  • a distância entre o cotovelo e a axila é um oitavo da altura de um homem
  • o comprimento da mão é um décimo da altura de um homem
  • a distância entre o fundo do queixo e o nariz é um terço do comprimento do rosto
  • a distância entre a linha de cabelo na testa e as sobrancelhas é um terço do comprimento do rosto
  • o comprimento da orelha é um terço do da face
  • o comprimento do pé é um sexto da altura
Vitrúvio já havia tentado encaixar as proporções do corpo humano dentro da figura de um quadrado e um círculo, mas suas tentativas ficaram imperfeitas. Foi apenas com Leonardo que o encaixe saiu corretamente perfeito dentro dos padrões matemáticos esperados.
O redescobrimento das proporções matemáticas do corpo humano no século XV por Leonardo e os outros é considerado uma das grandes realizações que conduzem ao Renascimento italiano.
O desenho também é considerado freqüentemente como um símbolo da simetria básica do corpo humano e, para extensão, para o universo como um todo. É interessante observar que a área total do círculo é identica ‘a área total do quadrado e este desenho pode ser considerado um algoritmo matemático para calcular o valor do número irracional ‘phi’ (=1,618).
 Esse desenho é usado até hoje por ilustradores para aprender a proporção humana, como se fosse um guia universal de ilustração.
Post original: http://www.desenhoonline.com/site/o-que-e-o-homem-vitruviano/

^^


A Origem de Carmina Burana - Letra O Fortune


MANUSCRITOS NO MOSTEIRO

Carmina Burana significa Canções de Benediktbeuern. Em meio à secularização de 1803, um rolo de pergaminho com cerca de duzentos poemas e canções medievais, foi encontrado na biblioteca da antiga Abadia de Menediktbeuern, na Alta Baviera. Havia poemas dos monges e dos eruditos viajantes em latim medieval; versos no vernáculo do alemão da Alta Idade Média, e pinceladas de frâncico. O erudito de dialetos da Baviera, Johann Andreas Schmeller, editou a coleção em 1847, sob o título de Carmina Burana. Carl Orff, filho de uma antiga família de eruditos e militares de Munique, ainda muito novo familiarizou-se com esse códice de poesia medieval. Ele arranjou alguns dos poemas em um “happening” – as “Cantiones profane contoribus et choris cantandae comitantibus instrumnetis atque imaginibus magics”- de canções seculares para solistas e coros, acompanhados por instrumentos de imagens mágicas. A obra já é vista no sentido do teatro musical de Orff, como um lugar de magia, da busca de cultos e símbolos.
            Esta cantata cênica é emoldurada por um símbolo de antigüidade – o conceito da roda-da-fortuna, em movimento perpétuo, trazendo alternadamente sorte e azar. Ela é uma parábola da vida humana, expostas a constantes transformações. Assim sendo, a dedicatória coral à Deusa da Fortuna (“O Fortuna, velut luna”), tanto introduz como conclui as canções seculares. Esse “happening” simbólico sombreado por uma Sorte obscura, divide-se em três seções: o encontro do Homem com a Natureza, particularmente com o despertar da Natureza na primavera (“Veris leta facies”), seu encontro com os dons da Natureza, culminado com o do vinho (“In taberna”); e seu encontro com o Amor (“Amor volat undique”), como espelhado em “Cour d’amours” na velha tradição francesa ou burgúndia – uma forma de serviço cavalheiresco às damas e ao amor. A invocação da Natureza – o objetivo da primeira seção – desemboca em campos verdes onde raparigas estão dançando e as pessoas cantando em vernáculo. As cenas festivas de libação desenrolam-se entre desinibidos monges, para quem um cisne assado parece ser um antegozo do Shangri-la, e entre barulhentos eruditos viajantes que louvam o sentido impetuoso da vida na juventude.
          Após muitos anos de experiência e deliberação, os Carmina Burana resultaram na primeira testemunha válida do estilo de Orff. Eles caracterizam-se por seu ritmo fortemente penetrante, comprimido em grandes ostinatos pelo som mágico da inovadora orquestração, e pela brilhante claridade da harmonia diatônica. Os recursos estilísticos utilizados são de espantosa simplicidade. A forma básica é a canção estrófica com uma melodia diatônica, como é de hábito na música popular. Ao invés da harmonia extensivamente cromática do romantismo tardio, temos melodias claramente definidas, que levam algumas vezes a uma errônea acusação de primitivismo. As canções estróficas reportam-se a formas medievais como a litania, baseada em uma série mais ou menos variada de curvas melódicas, cada uma correspondendo a uma linha de verso, e à forma seqüencial, caracterizada por uma repetição progressiva de várias seqüências de melodias. Os melodismos, particularmente nos recitativos, são reminiscências do cantochão gregoriano. Onde temos passagens líricas, fortemente emocionais, como por exemplo nos dois solos, para soprano sobre textos latinos, e melodias mais ariosas, no sentido operístico. A escritura coral é predominantemente declamatória. Os grupos instrumentais individuais são comprimidos em amplas massas tratadas na forma coral; somente as peculiares madeiras são ouvidas em solo, particularmente nas duas danças em que antigos ritmos e árias alemãs são tratados no estilo peculiar de Orff. A percussão, reforçada por pianos, acentua o élan da partitura.
                A gama expressiva de Carmina Burana estende-se da terna poesia do amor e da natureza, e da elegância burgúndia de uma “Cour d’amours”, ao entusiasmo agressivo (“In taberna”), efervescente joie de vivre (o solo de barítono “Estuans interius”), e à força devastadora do coro da fortuna cercando o todo. O latim medieval da canção dos viajantes eruditos é penetrado pela antiga concepção de que a vida humana está submetida aos caprichos da roda-da-fortuna, e que a Natureza, o Amor, a Beleza, o Vinho e a Exuberância da vida estão à mercê da eterna lei da mutabilidade. O homem é visto sob uma luz dura, não sentimental; como um joguete de forças impenetráveis e misteriosas. Esse ponto-de-vista é plenamente característico da atitude anti-romântica da obra.

Fonte: http://www.das.ufsc.br/~sumar/perfumaria/Carmina_Burana/carmina_burana.htm

Letra:

FORTUNA IMPERATRIZ DO MUNDO


01. O Fortuna


O Fortuna
velut luna
statu variabilis,
semper crescis
aut decrescis.
vita detestabilis,
nunc obdurat
et tunc curat;
ludo mentis aciem,
egestatem,
potestatem
dissolvit ut glaciem.

Sors immanis
et inanis,
rota tu volubilis,
status malus,
vana salus
semper dissolubilis,
obumbrata
et velata
michi quoque niteris;
nunc per ludum
dorsum nudum
fero tui sceleris.

Sors salutis
et virtutis
michi nunc contraria,
est affectus
et defectus
semper in angaria.
Hac in hora
sine mora
corde pulsum tangite;
quod per sortem
sternit fortem,
mecum omnes plangite!

 

01. Ó Fortuna



Ó Fortuna
és como a Lua
mutável,
sempre aumentas
e diminuis;
a detestável vida
ore escurece
e ora clareia
por brincadeira a mente;
miséria,
poder,
ela os funde como gelo.

Sorte monstruosa
e vazia,
tu – roda volúvel –
és má,
vã é a felicidade
sempre dissolúvel,
nebulosa
e velada
também a min contagias;
agora por brincadeira
o dorso nu
entrego à tua perversidade.

A sorte na saúde
e virtude
agora me é contrária.
e tira
mantendo sempre escravizado.
nesta hora
sem demora
tange a corda vibrante;
porque a sorte
abate o forte,
chorais todos comigo!

Fonte: http://www.das.ufsc.br/~sumar/perfumaria/Carmina_Burana/carmina_burana.htm#O Fortuna

sexta-feira, 18 de abril de 2014

COSMOS 02 - Uma Odisseia no Espaço-Tempo - Neil deGrasse Tyson

Esta é uma história sobre você e eu, e o seu cão. Houve uma época, não muito tempo atrás antes dos cães. Eles não existiam. Agora há cães grandes, pequenos, de colo, de guarda, de caça. Todo tipo de cão que você possa querer. Como isso aconteceu?
E não são só cães. De onde todos os diferentes tipos de criaturas vieram?
A resposta é um poder transformador que pode parecer algo saído direto de um mito ou conto de fadas, mas que não é tal coisa.
Vamos voltar 30.000 anos até um tempo antes dos cães, quando nossos ancestrais viviam no inverno sem fim da última era glacial. Nossos ancestrais eram nômades vivendo em pequenos grupos. Eles viviam sob as estrelas. O céu era seu livro de historia, calendário, um manual de instruções para a vida. Eles os diziam quando as friagens viriam, quando os grãos silvestres iriam amadurecer, quando as manadas de caribus e bisões estariam em marcha. Sua noção de lar era a própria Terra. Mas eles viviam com medo de outras criaturas famintas, os leões-da-montanha e os ursos que competiam com eles pela mesma caça e os lobos que ameaçam carregar e devorar os mais vulneráveis entre eles. Todos os lobos querem o osso, mas a maioria está muito assustada para chegar perto o bastante. Seu medo se deve a altos níveis de hormônios do estresse em seu sangue.
É uma questão de sobrevivência.
Pois chegar muito perto de humanos pode ser fatal.
Mas uns poucos lobos graças a variações naturais têm níveis mais baixos destes hormônios. Isso os faz ter menos medo dos humanos. Este lobo descobriu o que um ramo dos seus ancestrais deduziram cerca de 15.000 anos atrás, uma excelente tática de sobrevivência; a domesticação dos humanos.
Deixe os humanos caçarem, não os ameace, e eles lhe deixarão pilhar o seu lixo. Você vai comer mais regularmente, Vai deixar uma prole maior, e esta prole herdará esta disposição. Esta seleção pela mansidão seria reforçada com cada geração até que aquela linhagem de lobos evoluísse para cães.



Você pode chamar isso de "sobrevivência do mais amigável." E como agora, este foi um bom "trato" para os seres humanos, também. Os cães de limpeza não eram apenas  um pelotão de saneamento. Eles melhoravam a segurança. À medida que esta parceria entre espécies continuava, a aparência dos cães mudou também. Graciosidade tornou-se uma vantagem seletiva. Quanto mais adorável você era, melhores chances você tinha de viver e passar seus genes para outra geração.
O que começou como uma aliança de conveniência se tornou uma amizade que ficou mais forte com o tempo. Para ver o que acontece a seguir, vamos deixar nossos ancestrais distantes de cerca de 20.000 anos atrás para visitar o passado mais recente durante um intervalo na Era do Gelo.
Esta pausa no clima começa uma revolução. Em vez de vagar, as pessoas estão se estabelecendo. Há algo de novo no mundo... aldeias. As pessoas ainda caçam e coletam, mas agora eles também produzem alimentos e roupas... agricultura.
Os lobos têm trocado sua liberdade por refeições constantes. Eles desistiram do direito de escolher um par. Agora os humanos escolhem por eles. Eles matam consistentemente os cães que não podem ser treinadas; os que mordem a mão que os alimenta. E cruzam os cães que os agradam. Eles cuidam dos cães que cumprem com seus deveres... caça, pastoreio, guarda, transporte, e fazer-lhes companhia.
De cada ninhada, os humanos escolhem os filhotes de que gostam mais. Através das gerações, os cães evoluem. Este tipo de evolução se chama "seleção artificial" ou "criação". Transformar lobos em cães foi a primeira vez em que nós, humanos, tomamos a evolução em nossas mãos. E nós fazemos isto desde então para moldar todas as plantas e animais dos quais dependemos.

Em um instante de tempo cósmico, apenas 15.000 ou 20.000 anos, transformamos lobos cinzentos em todas as raças de cães que amamos hoje. Pense nisso. Cada raça de cão que você já viu foi esculpida por mãos humanas. Muitos dos nossos melhores amigos as raças mais populares foram criadas somente nos últimos séculos. O incrível poder da evolução transformou o lobo voraz no fiel pastor, que protege o rebanho e afugenta o lobo. A seleção artificial transformou o lobo no pastor, e as ervas silvestres em trigo e milho.
De fato, quase todas as plantas e animais que comemos hoje foram criados a partir de um ancestral selvagem menos comestível. Se a seleção artificial pode causar tão profundas alterações em apenas 10.000 ou 15.000 anos, o que a seleção natural pode fazer  agindo por bilhões de anos?
A resposta é toda a beleza e diversidade da vida. Como isso funciona? Nossa Nave da Imaginação pode nos levar a qualquer lugar no espaço e no tempo, até mesmo ao microcosmos oculto, onde um tipo de vida pode ser transformado em outro.
Venha comigo.
Pode não parecer, mas nós temos vivido em uma era do gelo pelos últimos dois milhões de anos. Só acontece de estarmos em um dos longos intervalos.
Pela maior parte destes dois milhões de anos, o clima foi frio e seco. A calota de gelo polar norte se estendia muito mais ao sul do que hoje. Em um desses longos períodos glaciais frios quando o gelo marinho de inverno se estendia desde o Pólo Norte até onde hoje é Los Angeles, grandes ursos vagavam pelas vastidões geladas da Irlanda.






Esta pode parecer uma ursa comum, mas algo extraordinário está acontecendo dentro dela. Algo que vai dar origem a uma nova espécie. Para ver isto, precisaremos descer até uma escala muito menor, até o nível celular, para que possamos explorar o aparelho reprodutivo da ursa.



Vamos seguir a artéria subclávia através do coração. Quase lá. Esses são alguns de seus óvulos. Para ver o que está acontecendo em um deles, teremos que ficar ainda menores. Vamos encolher até o nível molecular. Nossa Nave da Imaginação agora é tão pequena,que caberiam um milhão delas em um grão de areia.



Vê aqueles caras andando por aqueles cabos? são proteínas chamadas cinesinas.
Estas cinesinas são parte da equipe de transporte que está ocupada levando cargas através célula. Como parecem alienígenas. E ainda assim essas criaturinhas e seres como elas são uma parte de toda célula viva, inclusive as suas. Se a vida tem um santuário,é aqui no núcleo que contém nosso DNA a antiga escritura de nosso código genético. E escrita em uma linguagem que toda vida pode ler. DNA é uma molécula em forma de uma longa escada torcida ou dupla hélice.



Os degraus desta escada são feitos de quatro diferentes tipos de moléculas menores.
Estas são as letras do alfabeto genético. Arranjos particulares destas letras soletram as instruções para todos os seres vivos, lhes dizendo como crescer, mover-se, digerir, sentir o ambiente, curar-se, reproduzir. A dupla hélice de DNA é uma máquina molecular com cerca de 100 bilhões de partes chamadas "átomos."



Há tantos átomos em uma única molécula de nosso DNA quanto há estrelas em uma galáxia típica. O mesmo se aplica aos cães e ursos e toda coisa viva. Somos, cada um de nós, um pequeno universo. A mensagem de DNA entregue de célula para célula e de geração para geração é copiada com extremo cuidado. O nascer de uma nova molécula de DNA começa quando uma proteína abridora separa as duas fitas da dupla hélice, quebrando os degraus. Dentro do líquido do núcleo, as letras moleculares do código genético flutuam livres. Cada faixa da hélice copia seu parceiro perdido, resultando em duas moléculas de DNA idênticas. É assim que a vida reproduz e transmite os genes de uma geração para a próxima.



Quando uma célula se divide em duas, cada uma leva com ela uma cópia completa do DNA. Uma proteína especializada faz uma revisão para assegurar que só as letras corretas são aceitas para que o DNA seja precisamente copiado. Mas ninguém é perfeito. Às vezes, um erro passa pela revisão, causando uma pequena mudança nas instruções genéticas uma mutação ocorreu no óvulo da ursa. Uma obra do acaso tão pequena pode ter conseqüências em uma escala muito maior.



Essa mutação alterou o gene que controla a cor do pelo. Afetando a produção do pigmento escuro no pelo da prole da ursa. A maioria das mutações é inofensiva. Algumas são mortais. Mas umas poucas, por puro acaso, podem dar a um organismo uma vantagem crítica na competição. Um ano se passou. Nossa ursa agora é mãe. E como resultado daquela mutação, um dos dois filhotes nasceu com uma pelagem branca. Quando os filhotes tiverem idade para se aventurar sozinhos, qual urso será melhor em se esgueirar até uma presa despreocupada?





O urso pardo pode ser visto na neve a mais de um quilômetro. O urso branco prospera e transmite seu conjunto particular de genes. Isto acontece repetidamente. Geração após geração, o gene do pelo branco se espalha por toda a população de ursos árticos. O gene do pelo escuro perde na disputa pela sobrevivência. Mutações são aleatórias e acontecem o tempo todo. Mas a natureza recompensa os que aumentam a chance de sobrevivência. Ela seleciona naturalmente os seres vivos melhores adaptados para sobreviver. E esta seleção é o oposto de aleatória. As duas populações de ursos se separaram, e por milhares de anos, evoluíram outras características que as afastou. Tornaram-se espécies diferentes.
Foi isso que Charles Darwin quis dizer com "a origem das espécies." Um urso individual não evolui; a população de ursos evolui ao longo de gerações. Se o gelo do ártico continuar a diminuir por causa do aquecimento global, os ursos polares podem se extinguir. Serão substituídos pelos ursos pardos, melhor adaptados ao hoje descongelado ambiente. É uma história diferente daquela dos cães. Ninguém guiou estas mudanças. Em vez disso, a própria natureza as seleciona. Isto é evolução por seleção natural, a ideia mais revolucionária na história da ciência. Darwin apresentou evidências para esta ideia em 1859. O rebuliço que isso causou ainda não cessou.
Por que?
Todos entendemos a ponta de desconforto na noção de que dividimos um ancestral comum com os símios. Ninguém lhe constrange mais do que um parente. Nossos mais próximos, os chimpanzés, comumente se comportam mal em público. Há uma necessidade humana compreensível de se distanciar deles. Uma premissa central da crença tradicional é a de que fomos criados separadamente dos outros animais. É fácil ver porque esta ideia "pegou." Ela nos faz nos sentir... especiais. Mas e o nosso parentesco com as árvores?
Como faz você se sentir?
Certo, eis um segmento do DNA do carvalho. Pense nele como um código de barras.
As instruções escritas no código da vida dizem à árvore como metabolizar açúcar. Agora vamos compará-lo com uma seção do meu DNA. O DNA não mente. Esta árvore e eu somos primos bem distantes. E não são só as árvores. Se você voltar bastante, vai ver que dividimos um ancestral em comum com...
a borboleta... lobo... cogumelo... tubarão... bactérias... pardal.



Que família!
Outras partes do código variam de espécie para espécie. É isso que faz a diferença entre uma coruja e um polvo. A menos que você tenha um gêmeo idêntico, não há ninguém no universo com o mesmo DNA que você. Dentro de outras espécies, as diferenças genéticas geram a matéria-prima para a seleção natural. A natureza seleciona quais genes sobrevivem e se multiplicam. Com relação às instruções genéticas para as funções mais básicas da vida como digerir açúcares, nós e outras espécies somos quase idênticos. É porque estas funções são tão básicas à vida, que evoluíram antes que as várias formas de vida divergissem entre si.
Esta é a nossa Árvore da Vida.



A ciência nos possibilitou construir esta árvore genealógica de todas as espécies de vida na Terra. Parentes próximos ocupam o mesmo ramo da árvore, enquanto os mais distantes estão mais longe. Cada ponta é uma espécie viva. E o tronco representa os ancestrais comuns de toda a vida na Terra. A matéria da vida é tão maleável que desde que começou, a natureza a moldou em uma enorme variedade de formas 10.000 vezes mais do que podemos mostrar aqui. Biólogos classificaram meio milhão de tipos diferentes só entre besouros. Sem falar na inúmera variedade de bactérias.
Há milhões de espécies vivas de plantas e animais, a maioria ainda desconhecida.
Pense nisso, ainda não encontramos a maioria das formas de vida terrestre. Isso é o tanto de vida que há só neste pequeno planeta. A Árvore da Vida estende seus galhos em todas as direções, encontrar e explorando o que funcionar, criando novos ambientes e oportunidades para novas formas. A Árvore da Vida tem três bilhões e meio de anos. Isso é muito tempo para desenvolver um repertório impressionante de truques.  A evolução pode disfarçar um animal como uma planta levando milhares de gerações para inventar um traje elaborado que leva os predadores a procurar em outro lugar por algo para comer. Ou pode disfarçar uma planta como um animal, evoluindo flores com a aparência de uma vespa o jeito da orquídea de levar vespas reais a polinizá-la.  Este é o incrível poder transformador da seleção natural. Entre os densos membros emaranhados da grande Árvore da Vida você está aqui.
Um ramo pequeno entre incontáveis milhões. A ciência revela que toda a vida na Terra é uma só. Darwin descobriu o real mecanismo da evolução. A crença prevalecente era de que a complexidade e variedade de vida deveria ser o trabalho de um projetista inteligente, que criou cada uma destas milhões de espécies separadamente. "Os seres vivos são muito complexos", dizia-se, "para ser o resultado de evolução não guiada".  Veja o olho humano, uma obra-prima de complexidade requer uma córnea, íris, cristalino, retina, nervos ópticos, músculos, e a elaborada rede neural do cérebro
para interpretar imagens. É mais complexo do que qualquer dispositivo jamais construído pela inteligência humana. Portanto, argumentava-se, o olho humano não podia ser o resultado da evolução sem sentido para saber se isso é verdade, precisamos de viajar através do tempo. Portanto, argumentava-se, o olho humano não podia ser o resultado de evolução sem propósito. Para saber se isso é verdade, precisamos viajar pelo tempo para um mundo antes de haver olhos para ver.



No início, a vida era cega. É assim que nosso mundo se parecia quatro bilhões de anos atrás, antes de haver quaisquer olhos para ver.
Até algumas centenas de milhões de anos passarem, e então, um dia, houve um microscópico erro de cópia no DNA de uma bactéria. Esta mutação aleatória deu a esse micróbio uma molécula de proteína que absorvia luz solar. Quer saber como o mundo se parecia para uma bactéria sensível à luz ? Dê uma olhada no lado direito da tela.



Mutações continuaram a ocorrer aleatoriamente, como sempre fazem em qualquer população de seres vivos. Outra mutação fez uma bactéria escura fugir da luz intensa.
O que está acontecendo aqui?
Noite e dia. Essas bactérias que podiam distinguir claro e escuro tinha uma vantagem decisiva sobre os que não podiam. Porquê? Porque o dia traz luz ultravioleta que danifica o DNA. As bactérias sensíveis fugiam da luz intensa para trocar seu DNA com segurança no escuro. Elas sobreviveram em maior número do que as bactérias que ficavam na superfície. Ao longo do tempo, as proteínas sensíveis à luz se concentraram em um ponto de pigmento no mais avançado organismo unicelular.
Isto tornou possível achar a luz, uma vantagem esmagadora para um organismo que colhia luz solar para se alimentar. Aqui está a visão de mundo de uma planária.
Este organismo multicelular evoluiu uma covinha na mancha de pigmento. A depressão em forma de tigela permitia que o animal distinguisse a luz da sombra para discernir grosseiramente objetos em sua vizinhança, incluindo aqueles para comer e aquelas que podiam comê-lo uma tremenda vantagem. Mais tarde, as coisas tornaram-se mais claras. A covinha aprofundou-se e evoluiu para uma "bolha" com uma pequena abertura.



Por milhares de gerações, a seleção natural foi lentamente esculpindo o olho.
A abertura contraiu-se até um buraco coberto por uma membrana protetora transparente. Só um pouco de luz poderia entrar no buraco, mas foi o suficiente para pintar uma imagem fraca na superfície interna sensível do olho. Isto aumentou o foco.
Uma abertura maior teria deixado entrar mais luz, fazendo uma imagem mais brilhante, mas fora de foco. Este desenvolvimento lançou o equivalente visual de uma corrida armamentista. A competição precisava manter-se para sobreviver. Mas, então, um magnífico novo recurso do olho evoluiu, uma lente que fornecia brilho e nitidez.
Nos olhos de peixe primitivo, o gel transparente perto do orifício formou uma lente.
Ao mesmo tempo, o buraco aumentou para deixar entrar mais luz. Os peixes podiam ver em alta definição, tanto perto quanto longe. E depois algo terrível aconteceu.
Já notou que um canudo em um copo de água parece torto na superfície da água?
É porque a luz se dobra ao passar de um meio para outro, como da água para o ar.
Nossos olhos evoluíram primeiro para ver na água. O líquido aquoso naqueles olhos eliminava a distorção desse efeito de dobra. Mas para os animais terrestres, a luz leva imagens do ar seco aos seus olhos ainda aquosos. Isso dobra os raios de luz, causando todos os tipos de distorções. Quando nossos ancestrais anfíbios saíram da água para a terra, seus olhos, evoluídos para ver na água, eram ruins para ver no ar.
Nossa visão nunca foi tão boa desde então. Gostamos de pensar em nossos olhos como obras perfeitas, mas 375 milhões de anos depois, ainda não podemos ver coisas bem na frente de nossos narizes ou discernir detalhes na escuridão próxima do jeito que peixes podem.



Quando saímos da água, porque a natureza não começou do zero e nos evoluiu um novo conjunto de olhos otimizados para ver no ar? A natureza não funciona assim. A evolução remodela estruturas existentes ao longo de gerações, adaptando-as com pequenas mudanças. Ele não pode voltar para a prancheta e começar do zero. Em todas as fases de sua desenvolvimento, o olho em evolução funcionou bem o bastante para fornecer uma vantagem seletiva para a sobrevivência. E entre os animais vivos hoje, encontramos olhos em todas estas etapas do desenvolvimento. E todos eles funcionam. A complexidade das olho humano não é nenhum desafio para a evolução pela seleção natural. Na verdade, o olho e toda a biologia não faz sentido sem a evolução. Alguns afirmam que a evolução é apenas uma teoria, como se fosse apenas uma opinião.



A teoria da evolução, como a teoria da gravidade, é um fato científico. A evolução realmente aconteceu. Aceitar o nosso parentesco com toda a vida na Terra não é só ciência sólida. No meu ponto de vista, também é uma experiência espiritual elevadora.
Porque a evolução é cega, não pode antecipar ou se adaptar a eventos catastróficos.
A Árvore da Vida tem alguns galhos quebrados. Muitos deles foram cortados nas cinco maiores catástrofes que a vida já conheceu. Em algum lugar, há um memorial à multidão de espécies perdidas, os Salões de Extinção. Venha comigo.



Bem-vindo aos Salões da Extinção. Um monumento aos galhos quebrados da Árvore da Vida. Para cada uma das milhões de espécies vivas hoje, talvez mil outras tenham sido perdidas. A maioria delas morreu na competição diária com outras formas de vida. Mas muitas deles foram varridos em grandes cataclismos que assolaram o planeta. Nos últimos 500 milhões de anos isso já aconteceu cinco vezes. Cinco extinções em massa que devastaram a vida na Terra. A pior de todas aconteceu há cerca de 250 milhões de anos, no final de um período conhecido como o Permiano.
Trilobites eram animais blindados que caçavam em grandes manadas através do fundo do mar. Estiveram entre os primeiros animais a evoluir olhos formadores de imagens. Trilobites tiveram uma "vida" longa, cerca de 270 milhões de anos. A Terra já foi o planeta dos trilobites. Mas agora todos eles se foram, extintos. Os últimos foram varridos do palco da vida juntamente com incontáveis outras espécies em um incomparável desastre ambiental. O apocalipse começou no que hoje é a Sibéria, com erupções vulcânicas em uma escala diferente de tudo experimentado pelos humanos.
A Terra era muito diferente, com um único supercontinente e um grande oceano. Inundações implacáveis de lava ardente cobriram uma área maior que a Europa Ocidental. As erupções pulsantes ocorreram por centenas de milhares de anos.
A rocha derretida incendiou depósitos de carvão e contaminou o ar com dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa. Isto aqueceu a Terra e parou as correntes oceânicas de circulação. Bactérias nocivas floresceram, mas quase todo o resto nos mares morreu. As águas estagnadas arrotaram sulfeto de hidrogênio letal no ar, que sufocou a maioria dos animais terrestres. Nove em cada dez espécies no planeta foram extintas. Chamamos isto de... A Grande Morte.

A vida na Terra chegou tão perto de ser dizimada que levou mais de 10 milhões  de anos para se recuperar. Mas as novas formas de vida lentamente evoluíram para encher as lacunas deixadas pelo holocausto Permiano. Entre os maiores vencedores estavam os dinossauros. Agora, a Terra era o seu planeta. Seu reinado continuou por mais de 150 milhões de anos. Até que, também, desabou em outra extinção em massa. A vida na Terra tem tomado muitas surras através dos tempos. E ainda assim está aqui. A tenacidade da vida é atordoante. Continuamos a achando onde ninguém pensou que poderia estar. Esse corredor sem nome?



Isso é para outro dia.
Eu sei de um animal que pode viver em água fervente ou no gelo sólido. pode ficar 10 anos sem uma gota de água. pode viajar nu no vácuo frio e radiação intensa do espaço e vai voltar ileso. O tardígrado, ou urso d'água. Ele está em casa no topo das montanhas mais altas e nas mais profundas fossas marinhas. E em nosso próprio quintal, onde vivem entre o musgo em números incontáveis. Você provavelmente nunca os notou porque são muito pequenos. Como a ponta de uma agulha. Mas eles são durões. Os tardígrados sobreviveram a todas as cinco extinções em massa. Eles estão no negócio há meio bilhão de anos. Costumávamos pensar que a vida era mimada, que só se fixaria onde estava nem muito quente, nem muito frio, nem muito escuro ou salgado ou ácido ou radioativo. E não esqueça, sempre acrescente água.
Estávamos errados. Como o resistente tardígrado demonstra, a vida pode suportar condições que significariam morte certa para nós, seres humanos. Mas as diferenças entre nós e a vida encontrada nos mais extremos ambientes do nosso planeta são só variações de um mesmo tema, dialetos de uma única linguagem. O código genético da vida na Terra. Mas como seria a vida em outros mundos? Mundos com uma história química e evolução totalmente diferentes do nosso planeta? Há um mundo distante aonde quero lhe levar - um mundo muito diferente do nosso, mas que pode ter vida.
E se tiver, promete ser diferente de tudo já visto antes. Nuvens e névoa cobrem totalmente a superfície de Titã, a lua gigante de Saturno.



Titã me lembra um pouco de casa. Como a Terra, tem uma atmosfera primariamente de nitrogênio.Mas é quatro vezes mais densa. O ar de Titã não tem oxigênio. É bem mais frio que qualquer lugar da Terra. Mas ainda assim... Eu quero ir lá. Nós temos que descer através de umas centenas de quilômetros de névoa antes de poder ver a superfície. Mas escondido ali há uma paisagem estranhamente familiar.



Titã é o único outro mundo no sistema solar onde chove. Ele tem rios e praias. Titã tem centenas de lagos. Um deles maior do que o Lake Superior na América do Norte. Vapor subindo dos lagos se condensa e cai de novo como chuva. A chuva alimenta rios, que escavam vales na paisagem, como na Terra. Mas com uma grande diferença. Em Titã, as chuvas e os mares não são de água, mas de metano e etano.
Na Terra, essas moléculas formam gás natural. No gélido Titã, eles são líquidos. Titã tem muita água, mas toda ela congelada, dura como pedra. De fato, a paisagem e montanhas são feitas principalmente de gelo de água. A centenas de graus abaixo de zero, Titã é frio demais para a água derreter. Astrobiólogos desde Carl Sagan imaginaram se a vida poderia nadar nos lagos de hidrocarbonetos de Titã. A base química para tal vida teria que ser inteiramente diferente do que conhecemos. Toda a vida na Terra depende de água líquida. A superfície de Titã não tem nenhuma. Mas podemos imaginar outros tipos de vida. Pode haver criaturas que inalem hidrogênio em vez de oxigênio. E exalem metano em vez de dióxido de carbono. Podem usar acetileno em vez de açúcar como fonte de energia. Como podemos saber se estas criaturas mantêm um império oculto embaixo das ondas oleosas? Estamos mergulhando no Mar de Kraken, o nome do mítico monstro marinho nórdico. Mesmo que haja um desses aí embaixo, provavelmente não podemos ver. É muito escuro.
Se você extraísse todo o petróleo e gás natural da Terra, seria só uma pequena fração das reservas de Titã. Vamos acender umas luzes.



Estamos 200 metros abaixo da superfície. Você viu alguma coisa? Bem ali, naquela abertura. Talvez tenha sido minha imaginação Acho que vamos ter que voltar se quisermos ter certeza. Há uma última história que quero contar. E é a maior história que a ciência já contou. É a história da vida em nosso mundo. Bem vindo à Terra de 4 bilhões de anos atrás.



Este era nosso planeta antes da vida. Ninguém sabe como a vida começou. A maioria das evidências daquele tempo foi destruída por impactos e erosão. A ciência opera na fronteira entre conhecimento e ignorância não temos medo de admitir. Não há vergonha nisso. A única vergonha é achar que temos todas as respostas. Talvez alguém assistindo isto seja o primeiro a a resolver o mistério de como surgiu a vida na Terra. A evidência dos micróbios atuais sugere que seus primeiros ancestrais preferiam altas temperaturas. A vida na Terra pode ter surgido na água quente ao redor de chaminés vulcânicas submersas Na série Cosmos original, de Carl Sagan, ele traçou a linha contínua que se estende diretamente dos organismos unicelulares de quase 4 bilhões de anos atrás... até você.
4 bilhões de anos em 40 segundos. De criaturas que ainda não distinguiam o dia da noite a seres que estão explorando o cosmos. Estas são algumas das coisas que as moléculas fazem com 4 bilhões de anos de evolução.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

COSMOS 01 - Uma Odisseia no Espaço-Tempo - Neil deGrasse Tyson

Algumas poucas palavras apenas:
Começou a nova série Cosmos!
E para quem não tem tempo de assistir o programa ou não conhece, vou postar em meu blog os EPs por escrito! Se prepare, pois a viagem é mais do que exitante! ;)

O cosmos, é tudo o que existe, existiu e existirá.

Venha comigo.

Uma geração atrás, o astrônomo Carl Sagan esteve aqui e levou milhões de nós numa grande aventura: a exploração do universo revelado pela ciência.
Chegou a hora de ir de novo.
Esta jornada nos levará da menor casa decimal ao infinito. Do início dos tempos ao futuro distante. Vamos explorar galáxias, sóis e mundos. Navegar nas ondas de gravidade do espaço-tempo. Encontrar seres que vivem no fogo e no gelo. Explorar os planetas de estrelas que nunca morrem. Descobrir átomos tão grandes quanto sóis e universos menores do que átomos.



"Cosmos" é também uma história sobre nós. É uma saga de bandos nômades de caçador-coletores que conseguiram chegar às estrelas. Uma aventura com vários heróis. Para fazer esta jornada, precisamos de imaginação. Mas só imaginação não é o bastante porque a realidade da natureza é muito mais surpreendente do que qualquer coisa imaginável.

Esta aventura só é possível porque gerações de pesquisadores seguem severamente um conjunto de regras simples: teste ideias através de experimentos e observações, desenvolva as ideias que passarem o teste, rejeite as que falham, siga as evidências aonde elas levarem e questione tudo.

Aceite esses termos e o cosmos é seu.
Agora, venham comigo.



EPISÓDIO 1: "DE PÉ NA VIA LÁCTEA"

Nesta nave da imaginação livres das correntes do espaço e do tempo nós podemos ir a qualquer lugar.

TERRA

Vamos sair da Terra, o único lar que conhecemos para ir aos confins do cosmos. Nosso vizinho mais próximo é a Lua. Ela não tem céu, nem oceano, nem vida. Só as cicatrizes de impactos cósmicos. A nossa estrela dá poder ao vento e às ondas e toda a vida na superfície do nosso mundo.



O Sol tem todos os mundos do Sistema Solar em seu abraço gravitacional, a começar por Mercúrio, e a nublada Vênus onde um rápido efeito estufa transformou-a num inferno. Marte, um mundo com tanta terra quanto a própria Terra. Um cinturão de asteróides rochosos, circula o Sol entre as órbitas de Marte e Júpiter. Com suas quatro luas gigantes e dúzias de luas menores, Júpiter é quase um Sistema Solar próprio. Tem mais massa do que todos os outros planetas juntos.
A Grande Mancha Vermelha de Júpiter. Um furacão três vezes maior do que nosso planeta em plena fúria há séculos.
A joia da coroa do nosso Sistema Solar: Saturno. Cercado por três arcos de incontáveis partículas de gelo em órbita. Cada partícula de gelo é uma pequena lua.
Urano e Netuno. Os planetas mais distantes. Desconhecidos dos antigos e que só foram descobertos após a invenção do telescópio.



Além dos planetas mais distantes existem dezenas de milhares de mundos congelados. E Plutão é um deles.



De todos os nossos veículos espaciais esta é que a chegou mais longe: a Voyager 1.



Ele carrega uma mensagem para daqui a um bilhão de anos. Um pedaço do que éramos dos nossos sentimentos e da música que criamos.

As maiores profundezas desse vasto oceano cósmico e dos mundos inumeráveis estão pela frente. Daqui de fora, o Sol parece uma estrela qualquer mas ainda exerce sua gravitação em um trilhão de cometas congelados.
Restos da formação do Sistema Solar há aproximadamente 5 bilhões de anos.



A "Nuvem de Oort". Ninguém nunca a viu antes, e nem poderiam porque cada um desses mundos é tão longe do seu vizinho quanto a Terra é de Saturno. Esta nuvem enorme de cometas cerca o Sistema Solar que é a segunda linha do nosso endereço cósmico.

TERRA, SISTEMA SOLAR

Só conseguimos detectar os planetas de outras estrelas há poucas décadas, mas já sabemos que existem vários planetas. São mais numerosos do que as estrelas.
Quase todos eles seriam bem diferentes da Terra e inóspitos para a vida que nós conhecemos.
Mas o que sabemos sobre a vida?
Nós só conhecemos um tipo dela: a da Terra.
Está vendo alguma coisa? Espaço vazio, não é?
O olho humano só vê uma pequena parte da luz do cosmos.
Mas a ciência nos dá o poder de ver o que nossos sentidos não enxergam.
A luz infravermelha só é visível com óculos de visão noturna.
Se colocarmos um sensor infravermelho nas trevas.
Planeta interestelar. Um mundo sem sol.



Nossa galáxia tem bilhões deles, à deriva, numa noite perpétua.
São órfãos, separados de suas estrelas-mães durante o nascimento caótico de seu sistema nativo.
Planetas interestelares tem núcleos fundidos mas superfícies congeladas.
Podem haver oceanos de água líquida entre esses dois extremos.
Sabe-se lá o que pode estar nadando ali.
Esta é a Via Láctea sob infravermelho.
Todos os pontinhos, não só os brilhantes, são estrelas.
Quantas estrelas? Quantos mundos?
Quantas formas de vida?



GALÁXIA VIA LÁCTEA
Onde estamos nessa foto?
Está vendo aquele braço? É ali que moramos.



A 30 mil anos-luz do centro.
A Via Láctea é a próxima linha de nosso endereço cósmico.
Estamos a 100 mil anos-luz da nossa casa.
A luz, a coisa mais rápida que existe levaria 100 mil anos para nos alcançar.



Esta é a grande galáxia espiral de Andrômeda a nossa vizinha.
Nós chamamos o grupo de galáxias gigantes e algumas pequenas de "Grupo Local".

TERRA, SISTEMA SOLAR
GALÁXIA VIA LÁCTEA, GRUPO LOCAL

Não dá nem para achar nossa galáxia daqui de fora.
É só mais uma dentre milhares no Super aglomerado de Virgem.
A esta escala todos os objetos que nós vemos inclusive os menores pontos, são galáxias.



Cada galáxia contém bilhares de sóis e incontáveis mundos.
Mesmo assim, o Super aglomerado de Virgem inteiro forma somente uma pequena parte do nosso universo.




Este é o cosmos na maior escala que conhecemos.
Uma rede de cem bilhões de galáxias.
É a última linha do nosso endereço cósmico.
Por enquanto.

UNIVERSO OBSERVÁVEL
Universo observável? O que isso significa?
Até para nós, na nossa nave da imaginação há um limite de até onde podemos enxergar no espaço-tempo.
É o nosso horizonte cósmico.



Além desse horizonte há partes do universo que estão longes demais.
Não houve tempo o bastante nos 13,8 bilhões de anos do universo para a luz deles nos alcançar.
Muitos de nós suspeitam que tudo isso todos os mundos, estrelas, galáxias e aglomerados no nosso universo observável não passam de uma bolha minúscula num oceano infinito de outros universos. Um multiverso.



Universo sobre universo.
Mundos sem fim.
Está se sentindo pequeno?
No contexto do cosmos, nós somos pequenos.
Somos homenzinhos morando num grão de poeira flutuando numa imensidão desconcertante.
Mas não pensamos pequeno.
Esta perspectiva cósmica é relativamente nova.
Meros quatro séculos atrás nosso mundinho não fazia ideia do alcance do cosmos.
Não havia telescópios.
O universo era só o que se podia ver a olho nu.
Em 1599 todos "sabiam" que o Sol, os planetas e as estrelas eram só luzes no céu que giravam em torno da Terra e que éramos o centro do nosso pequeno universo.
Um universo feito para nós.
Só havia um homem no planeta todo que imaginava um cosmos infinitamente maior.
E como ele passou a véspera do ano-novo de 1600?
Preso, claro.
Tem uma época na nossa vida em que percebemos que não somos o centro do universo e que pertencemos a algo muito maior do que nós.
Faz parte do amadurecimento. E assim como acontece com cada um de nós aconteceu também com a nossa civilização, no século 16.
Imagine um mundo antes dos telescópios em que o universo era só o que se via a olho nu. Era "óbvio" que a Terra não se movia e que tudo nos céus, o Sol, a Lua, as estrelas, os planetas giravam em torno de nós.
Então, um astrônomo e padre polonês chamado Copérnico fez uma proposta radical: a Terra não era o centro. Era só mais um planeta e, assim como eles girava em torno do Sol.
Muitos, como o protestante Martinho Lutero consideravam essa ideia uma afronta às Escrituras. Estavam horrorizados. Porém, para um homem Copérnico não tinha ido longe o bastante. Seu nome era Giordano Bruno e era um rebelde nato.
Ele ansiava sair daquele pequeno universo. Mesmo quando era monge em Nápoles era um peixe fora d'água. Nessa época, não havia liberdade de pensamento na Itália.
Mas Bruno queria saber tudo sobre a criação de Deus. Ele ousou ler os livros banidos pela Igreja. E essa foi a sua desgraça.
Em um deles, um romano antigo um homem que estava morto há mais de 1500 anos falava de um universo maior. Um universo tão sem limites quanto sua definição de Deus.
Lucrécio pedia ao leitor para se imaginar à beira do universo atirando uma flecha para fora dele. Se a flecha continuar, então o universo é maior do que você imaginava ser a beira. Mas se a flecha não continuar e, digamos, bater num muro então esse muro fica além da beira que você imaginava. Se você subir nesse muro e atirar mais uma flecha
você tem as mesmas duas possibilidades: ou ela ficará para sempre no espaço ou baterá numa fronteira na qual você pode subir e atirar outra flecha.



De qualquer forma, o universo não tem limites.
O cosmos deve ser infinito.
Isso fez sentido para Bruno.
O deus que ele adorava era infinito logo, pensava ele, como poderia sua criação não o ser?
Foi o último emprego fixo que ele teve.
Então, aos 30 anos ele teve a visão que selou seu destino. Neste sonho, ele acordou num mundo dentro de uma tigela de estrelas. Este era o cosmos da época de Bruno.
Ele vivenciou um momento repugnante de medo como se o chão estivesse se desfazendo mas conseguiu criar coragem. Eu abri minhas asas e subi confiante para o espaço flutuando através do infinito, deixando para trás o que outros se esforçavam para ver de longe. Aqui, não havia cima nem baixo, nem beira, nem centro.
Eu vi que o Sol era só mais uma estrela e que as estrelas eram outros sóis, cada uma acompanhada de outras Terras, como a nossa.
A revelação dessa imensidão foi como se apaixonar.
Bruno tornou-se um evangelista espalhando o "evangelho do infinito" pela Europa.
Imaginava que outros amantes de Deus abraçariam naturalmente essa visão mais gloriosa da Criação. Como eu fui idiota!



Ele foi excomungado pela Igreja em seu país natal, expulso pelos calvinistas da Suíça e pelos luteranos alemães.
Bruno aceitou dar uma palestra em Oxford, na Inglaterra. Enfim, pensou ele, uma chance de compartilhar sua visão com uma plateia de colegas.
Eu vim apresentar uma nova visão do cosmos.
Copérnico tinha razão de achar que nosso mundo não era o centro do universo.
A Terra gira em torno do Sol.
É um planeta, como qualquer outro.
Mas Copérnico era só a aurora eu lhes trago o nascer do sol!
-Ultrajante!
-As estrelas são outros sóis feitas da mesma substância que a Terra.
E eles têm suas próprias Terras aquosas com plantas e animais tão nobres quanto os nossos.
Você é louco ou simplesmente ignorante?
Todos sabem que só existe um mundo!
O que todos sabem está errado!
Nosso Deus infinito criou um universo sem limites com um número infinito de mundos!
Vocês não leem Aristóteles no seu país? Ou até mesmo a Bíblia? Imploro: rejeitem antiguidade, tradição, fé e autoridade!
Vamos recomeçar por duvidar do que achávamos ter sido provado.
-Herege!
-Infiel!
Ou Deus é pequeno demais!
Um homem mais sábio teria aprendido a lição. Mas Bruno não era assim. Ele não conseguia manter sua visão do cosmos para si mesmo.
Apesar do fato que a pena por fazer isso no mundo dele era a forma mais perversa de punição cruel e incomum.
Na época de Giordano Bruno não havia separação de Igreja e Estado e liberdade de expressão não era um direito sagrado. Expressar uma ideia diferente da crença tradicional tinha consequências terríveis.
Irresponsavelmente, Bruno voltou à Itália. Vai ver ele sentiu saudades de casa mas ele deveria saber que seu país era um dos lugares mais perigosos da Europa para ele.
A Igreja Católica tinha um sistema de tribunais conhecido como "Inquisição".
Seu único propósito era investigar e atormentar todos os que ousavam pensar diferente deles.Não demorou muito até Bruno cair nas garras da "polícia do pensamento".Este nômade que adorava um universo infinito ficou confinado por oito anos.
Apesar de interrogatórios inexoráveis ele se recusava a renunciar aos seus ideais.
Por que a Igreja se esforçava tanto para atormentar Bruno?
Do que eles tinham medo?
Se Bruno estivesse certo os livros sagrados e a autoridade da Igreja estariam abertos a questionamentos. Finalmente, os cardeais da Inquisição deram o veredito.
Você foi considerado culpado de questionar a Trindade e a divindade de Jesus Cristo de crer que a ira de Deus não é eterna e que, portanto, todos seriam salvos de declarar a existência de outros mundos.
Todos os livros que você escreveu serão queimados na Praça de São Pedro.
Reverendíssimo padre, os oito anos de confinamento deram-me muito tempo de refletir.
Então, você se arrepende?
Meu amor e reverência pelo Criador inspira em mim a visão de uma criação infinita.
Você vai ser entregado para o governador de Roma para sofrer a punição apropriada para aqueles que não querem se arrepender. Talvez você esteja com mais medo de entregar esse julgamento do que eu de ouvi-lo.
Bruno foi queimado vivo em praça pública.



Dez anos depois do martírio de Bruno Galileu olhou por um telescópio pela primeira vez e viu que Bruno sempre teve razão. A Via Láctea era feita de infinitas estrelas invisíveis a olho nu e algumas daquelas luzes no céu eram outros mundos.
Bruno não era nenhum cientista. Sua visão do cosmos foi um palpite porque ele não tinha evidências. Como muitos palpites, ele poderia ter errado. Mas assim que a ideia foi propagada deu a outros um alvo a se mirar, nem que fosse para refutá-la.
Bruno olhou a vastidão do espaço mas ele não fazia ideia da imensidão desconcertante do tempo.
Como podemos nós, que raramente vivemos mais de um século alcançar a vasta extensão de tempo que é a história do cosmos?
O universo tem 13,8 bilhões de anos.
Para imaginar todo o tempo cósmico vamos reduzi-lo a um ano de calendário.



O calendário cósmico começa em 1º de janeiro, o nascimento do universo.
Aqui temos tudo o que aconteceu desde então, até agora o que, neste calendário, é a meia-noite de 31 de dezembro.
Nesta escala, cada mês representa mais ou menos um bilhão de anos.
Cada dia representa quase 40 milhões de anos.
Vamos voltar o máximo que podemos até o primeiríssimo momento do universo.
Dia 1º de janeiro. O Big Bang.
É o tempo mais antigo que podemos ver.
Por enquanto.
Nosso universo todo nasceu de um ponto menor do que um único átomo.
O próprio espaço explodiu num fogo cósmico lançando a expansão do universo e dando início a toda a energia e toda a matéria que conhecemos hoje.
Eu sei que parece loucura mas há evidências fortes dando apoio à Teoria do Big Bang. Entre elas, o tanto de hélio no cosmos e o brilho de ondas de rádio que restaram da explosão.
Conforme se expandia, o universo resfriava e foi trevas por 200 milhões de anos.
A gravidade juntava gases e os aquecia até as primeiras estrelas nascerem no dia 10 de janeiro.
No dia 13 de janeiro estas estrelas formaram as primeiras pequenas galáxias.
Estas se juntaram para formar galáxias maiores Inclusive a nossa Via Láctea que se formou há uns 11 bilhões de anos no dia 15 de março do ano cósmico.
Centenas de bilhares de sóis.
Qual deles é o nosso?
Ele ainda não nasceu.
Ele nascerá das cinzas de outras estrelas.
Está vendo essas luzes brilhando feito paparazzi?



Cada uma delas é uma supernova a morte ardente de uma estrela gigante.Estrelas morrem e nascem em lugares assim um berçário estelar. Elas se condensam como gotas de chuvas de nuvens gigantes de gás e poeira. Elas esquentam tanto que os núcleos dos átomos se fundem profundamente para fazer o oxigênio que respiramos o carbono dos nossos músculos, o cálcio dos nossos ossos o ferro do nosso sangue, tudo isso foi criado nos corações ardentes de estrelas mortas.
Você, eu, todo mundo.
Nós somos feitos de poeira das estrelas.
Essa "poeira" é reciclada e enriquecida repetidamente através de gerações de estrelas.



Quanto tempo até o nascimento do nosso sol?
Bastante tempo. Ele só vai começar a brilhar daqui a 6 bilhões de anos. Nosso sol nasce em 31 de agosto, no calendário cósmico. Há 4,5 bilhões de anos. Assim como os outros mundos do nosso Sistema a Terra foi formada de um disco de gás e poeira
orbitando o Sol recém-nascido. Repetidas colisões produziram uma bola crescente de detritos.
Está vendo aquele asteroide? Esse aí, não. Aquele outro ali. Nós existimos porque a gravidade do asteroide vizinho desse desviou-o um centímetro para a esquerda. Que diferença faria um centímetro na escala do Sistema Solar?
Espere só. Você já vai ver.
A Terra levou uma surra no primeiro bilhão de anos. Fragmentos de detritos colidiram e se aglutinaram até formarem a nossa lua.



A Lua é uma lembrancinha dessa era violenta. Se você estivesse na Terra dessa época a Lua seria mil vezes mais brilhante. Ela ficava dez vezes mais próxima presa num abraço gravitacional muito mais íntimo. Conforme a Terra foi esfriando, mares foram se formando. As marés eram mil vezes mais fortes.
Com o passar das eras a fricção das marés foi afastando a Lua.
A vida começou mais ou menos aqui no dia 21 de setembro há 3,5 bilhões de anos no nosso pequeno mundo.
Ainda não sabemos como a vida começou. Pode até ter vindo de outra parte da Via Láctea. A origem da vida é um dos maiores mistérios da ciência.



Essa é a vida se criando evoluindo todas as receitas bioquímicas para suas atividades incrivelmente complexas.
No dia 9 de novembro, a vida respirava mexia-se, comia, respondia ao seu ambiente.
Devemos muito àqueles micróbios pioneiros.
Ah, sim, mais uma coisa: eles também inventaram o sexo.
O dia 17 de dezembro foi um dia e tanto. A vida marinha sofreu uma guinada explodindo com uma diversidade de plantas e animais maiores.
O Tiktaalik foi um dos primeiros a tentar a vida na terra. Deve ter sido como visitar outro país.
Florestas, dinossauros, pássaros, insetos, todos evoluíram na última semana de dezembro.
A primeira flor floresceu no dia 28 de dezembro. Conforme estas florestas antigas cresciam e morriam e caíam para debaixo da terra seus restos se transformaram em carvão. Trezentos milhões de anos depois nós queimamos esse carvão para dar poder e pôr em perigo nossa civilização.
Lembra-se daquele asteróide na formação do Sistema Solar?
O que foi desviado um pouco para a esquerda?
Lá vem ele.
São 6h24 da manhã, no dia 30 de dezembro no calendário cósmico. Há mais de 100 milhões de anos, dinossauros dominavam a Terra e nossos ancestrais, pequenos mamíferos escondiam-se, com medo. O asteroide mudou isso tudo. Se ele não tivesse sido desviado não teria atingido a Terra. Os dinossauros poderiam ainda estar vivos e nós, não.
É um bom exemplo da contingência extrema, da natureza acidental, da existência.

O universo já tem mais de 13,5 bilhões de anos e ainda nenhum sinal de nós. No vasto oceano de tempo que este calendário representa nós só evoluímos dentro da última hora do último dia do ano cósmico.
São 23 horas, 59 minutos e 46 segundos. Nossa história documentada só ocupa os últimos 14 segundos e todas as pessoas de que você já ouviu falar viveu nesta pequena época. Todos os reis e batalhas, migrações e invenções, guerras e amores, tudo o que existe nos livros de História aconteceu nos últimos segundos do calendário cósmico.



Mas para explorar um momento tão breve no tempo cósmico teremos que mudar de escala. Nós somos novos no cosmos. A nossa história só começa na última noite do ano cósmico.
São 21h45, na véspera de ano-novo. Há 3,5 milhões de anos nossos ancestrais, os seus e os meus deixaram estes rastros.



Nós nos levantamos e seguimos outro caminho. Assim que viramos bípedes nossos olhos não estavam mais voltados ao chão. Agora, nós somos livres para olhar para cima e imaginar. Pela maior parte da existência humana digamos, pelas últimas 40 mil gerações éramos nômades, vivendo em bandos de caçador-coletores. Fazendo ferramentas, controlando o fogo dando nomes às coisas.
Tudo isso durante a última hora do calendário cósmico.
Para descobrir o que vem depois teremos que mudar de escala para ver o último minuto da última noite do ano cósmico.
São 23h59. Somos tão jovens na escala de tempo do universo que só fomos começar a pintar imagens nos últimos 60 segundos do ano cósmico meros 30 mil anos atrás.
Foi nessa época que inventamos a astronomia. De fato, todos descendemos de astrônomos. Nossa sobrevivência dependia de ler as estrelas para prever a chegada do inverno e a migração das manadas selvagens.
E então, há mais ou menos 10 mil anos começou uma revolução no nosso jeito de viver. Nossos ancestrais aprenderam a dar forma a seu ambiente domesticando plantas e animais selvagens cultivando terras e se estabelecendo.
Isso mudou tudo.  Pela primeira vez na nossa história tínhamos mais do que podíamos carregar. Precisávamos de um jeito de manter um controle.
A 14 segundos da meia-noite ou há mais ou menos 6 mil anos nós inventamos a escrita. E logo estávamos registrando mais do que punhados de grãos. A escrita nos permitia gravar pensamentos e propagá-los no espaço e no tempo. Pequenas marcações numa tábua de barro tornaram-se um modo de vencer a mortalidade.
Isso abalou o mundo.  Moisés nasceu sete segundos atrás. Buda, há seis segundos.
Jesus, há cinco.


 Maomé, há três. Não faz nem dois segundos que, pelo bem ou pelo mal as duas metades do mundo se descobriram. E foi só no último segundo do calendário cósmico que começamos a usar a ciência para revelar os segredos e leis da natureza.
O método científico é tão poderoso que em meros quatro séculos ele nos levou do primeiro uso do telescópio por Galileu a deixar nossas pegadas na Lua. Permitiu-nos a olhar através do espaço e tempo para descobrir onde e quando estamos no cosmos.
Nós somos uma maneira de o cosmos se descobrir. Carl Sagan guiou a primeira viagem de "Cosmos" uma geração atrás. Ele foi o comunicador de ciência mais bem-sucedido do séc. 20. Mas, em primeiro lugar, ele era um cientista. Carl contribuiu enormemente para o nosso conhecimento dos planetas. Ele previu corretamente a existência de lagos de metano em Titã, a lua gigante de Saturno. Ele mostrou que a atmosfera do início da Terra deve ter contido poderosos gases de efeito estufa.
Ele foi o primeiro a entender que mudanças sazonais em Marte tinham a ver com poeira transportada pelo vento. Carl foi pioneiro na busca por vida e inteligência extraterrestre. Ele teve papel principal em todas as missões para explorar o Sistema Solar durante os primeiros 40 anos da Era Espacial. Mas ele não fez só isso.


Este é o calendário de Carl Sagan, de 1975.
Quem eu era nessa época?
Eu era só um jovem de 17 anos, do Bronx que sonhava em ser cientista e, de algum jeito, o astrônomo mais famoso do mundo achou tempo de me convidar para Ithaca, Nova York para passar um sábado com ele. Eu me lembro daquele dia de neve como se fosse ontem. Ele me encontrou no ponto de ônibus e me mostrou seu laboratório na Universidade de Cornell.
Carl colocou a mão atrás de sua mesa e assinou este livro para mim.
"Para Neil, um futuro astrônomo. Carl."



No fim do dia, ele me levou ao terminal a neve estava mais forte. Escreveu o telefone de sua casa num pedaço de papel e disse: "Se o ônibus não sair, ligue para mim. Passe a noite na minha casa, com a minha família." Eu já sabia que queria ser cientista mas, naquela tarde, eu aprendi com o Carl o tipo de pessoa que eu queria me tornar. Ele estendeu a mão para mim e para vários outros inspirando muitos de nós a estudar, lecionar e fazer ciência.
A ciência é um empreendimento de cooperação abrangendo gerações. É passar a tocha de professor a aluno e a professor. Uma comunidade de mentes, estudando a antiguidade e a caminho das estrelas.



Agora, venha comigo. A nossa jornada mal começou. Semana que vem, nossa incrível jornada continua. Bem-vindos à Terra, 4 bilhões de anos atrás, mas se você quer ver "Cosmos", você tem duas opções. Este é o incrível poder de mudança de forma da Seleção Natural.

Veja seu mundo como nunca antes.
É a maior história já contada pela ciência.


_____________________________________________________________

Para quem desejar assistir a série, tem disponível para download em torrente com legenda e também dublado.
Em breve postarei o EP 2 aqui!