Algumas poucas palavras apenas:
Começou a nova série Cosmos!
E para quem não tem tempo de assistir o programa ou não conhece, vou postar em meu blog os EPs por escrito! Se prepare, pois a viagem é mais do que exitante! ;)
O cosmos, é tudo o que existe, existiu e existirá.
Venha comigo.
Uma geração atrás, o astrônomo Carl Sagan esteve aqui e
levou milhões de nós numa grande aventura: a exploração do universo revelado
pela ciência.
Chegou a hora de ir de novo.
Esta jornada nos levará da menor casa decimal ao infinito. Do
início dos tempos ao futuro distante. Vamos explorar galáxias, sóis e mundos. Navegar
nas ondas de gravidade do espaço-tempo. Encontrar seres que vivem no fogo e no
gelo. Explorar os planetas de estrelas que nunca morrem. Descobrir átomos tão
grandes quanto sóis e universos menores do que átomos.
"Cosmos" é também uma história sobre nós. É uma
saga de bandos nômades de caçador-coletores que conseguiram chegar às estrelas.
Uma aventura com vários heróis. Para fazer esta jornada, precisamos de imaginação.
Mas só imaginação não é o bastante porque a realidade da natureza é muito mais
surpreendente do que qualquer coisa imaginável.
Esta aventura só é possível porque gerações de pesquisadores
seguem severamente um conjunto de regras simples: teste ideias através de
experimentos e observações, desenvolva as ideias que passarem o teste, rejeite
as que falham, siga as evidências aonde elas levarem e questione tudo.
Aceite esses termos e o cosmos é seu.
Agora, venham comigo.
EPISÓDIO 1: "DE PÉ NA VIA LÁCTEA"
Nesta nave da imaginação livres das correntes do espaço e do
tempo nós podemos ir a qualquer lugar.
TERRA
Vamos sair da Terra, o único lar que conhecemos para ir aos
confins do cosmos. Nosso vizinho mais próximo é a Lua. Ela não tem céu, nem
oceano, nem vida. Só as cicatrizes de impactos cósmicos. A nossa estrela dá
poder ao vento e às ondas e toda a vida na superfície do nosso mundo.
O Sol tem todos os mundos do Sistema Solar em seu abraço
gravitacional, a começar por Mercúrio, e a nublada Vênus onde um rápido efeito
estufa transformou-a num inferno. Marte, um mundo com tanta terra quanto a própria
Terra. Um cinturão de asteróides rochosos, circula o Sol entre as órbitas de
Marte e Júpiter. Com suas quatro luas gigantes e dúzias de luas menores, Júpiter
é quase um Sistema Solar próprio. Tem mais massa do que todos os outros
planetas juntos.
A Grande Mancha Vermelha de Júpiter. Um furacão três vezes
maior do que nosso planeta em plena fúria há séculos.
A joia da coroa do nosso Sistema Solar: Saturno. Cercado por
três arcos de incontáveis partículas de gelo em órbita. Cada partícula de gelo é
uma pequena lua.
Urano e Netuno. Os planetas mais distantes. Desconhecidos
dos antigos e que só foram descobertos após a invenção do telescópio.
Além dos planetas mais distantes existem dezenas de milhares
de mundos congelados. E Plutão é um deles.
De todos os nossos veículos espaciais esta é que a chegou mais
longe: a Voyager 1.
Ele carrega uma mensagem para daqui a um bilhão de anos. Um
pedaço do que éramos dos nossos sentimentos e da música que criamos.
As maiores profundezas desse vasto oceano cósmico e dos
mundos inumeráveis estão pela frente. Daqui de fora, o Sol parece uma estrela
qualquer mas ainda exerce sua gravitação em um trilhão de cometas congelados.
Restos da formação do Sistema Solar há aproximadamente 5
bilhões de anos.
A "Nuvem de Oort". Ninguém nunca a viu antes, e
nem poderiam porque cada um desses mundos é tão longe do seu vizinho quanto a
Terra é de Saturno. Esta nuvem enorme de cometas cerca o Sistema Solar que é a
segunda linha do nosso endereço cósmico.
TERRA, SISTEMA SOLAR
Só conseguimos detectar os planetas de outras estrelas há
poucas décadas, mas já sabemos que existem vários planetas. São mais numerosos do
que as estrelas.
Quase todos eles seriam bem diferentes da Terra e inóspitos
para a vida que nós conhecemos.
Mas o que sabemos sobre a vida?
Nós só conhecemos um tipo dela: a da Terra.
Está vendo alguma coisa? Espaço vazio, não é?
O olho humano só vê uma pequena parte da luz do cosmos.
Mas a ciência nos dá o poder de ver o que nossos sentidos não
enxergam.
A luz infravermelha só é visível com óculos de visão
noturna.
Se colocarmos um sensor infravermelho nas trevas.
Planeta interestelar. Um mundo sem sol.
Nossa galáxia tem bilhões deles, à deriva, numa noite perpétua.
São órfãos, separados de suas estrelas-mães durante o
nascimento caótico de seu sistema nativo.
Planetas interestelares tem núcleos fundidos mas superfícies
congeladas.
Podem haver oceanos de água líquida entre esses dois
extremos.
Sabe-se lá o que pode estar nadando ali.
Esta é a Via Láctea sob infravermelho.
Todos os pontinhos, não só os brilhantes, são estrelas.
Quantas estrelas? Quantos mundos?
Quantas formas de vida?
GALÁXIA VIA LÁCTEA
Onde estamos nessa foto?
Está vendo aquele braço? É ali que moramos.
A 30 mil anos-luz do centro.
A Via Láctea é a próxima linha de nosso endereço cósmico.
Estamos a 100 mil anos-luz da nossa casa.
A luz, a coisa mais rápida que existe levaria 100 mil anos para
nos alcançar.
Esta é a grande galáxia espiral de Andrômeda a nossa
vizinha.
Nós chamamos o grupo de galáxias gigantes e algumas pequenas
de "Grupo Local".
TERRA, SISTEMA SOLAR
GALÁXIA VIA LÁCTEA, GRUPO LOCAL
Não dá nem para achar nossa galáxia daqui de fora.
É só mais uma dentre milhares no Super aglomerado de Virgem.
A esta escala todos os objetos que nós vemos inclusive os
menores pontos, são galáxias.
Cada galáxia contém bilhares de sóis e incontáveis mundos.
Mesmo assim, o Super aglomerado de Virgem inteiro forma
somente uma pequena parte do nosso universo.
Este é o cosmos na maior escala que conhecemos.
Uma rede de cem bilhões de galáxias.
É a última linha do nosso endereço cósmico.
Por enquanto.
UNIVERSO OBSERVÁVEL
Universo observável? O que isso significa?
Até para nós, na nossa nave da imaginação há um limite de até
onde podemos enxergar no espaço-tempo.
É o nosso horizonte cósmico.
Além desse horizonte há partes do universo que estão longes
demais.
Não houve tempo o bastante nos 13,8 bilhões de anos do
universo para a luz deles nos alcançar.
Muitos de nós suspeitam que tudo isso todos os mundos,
estrelas, galáxias e aglomerados no nosso universo observável não passam de uma
bolha minúscula num oceano infinito de outros universos. Um multiverso.
Universo sobre universo.
Mundos sem fim.
Está se sentindo pequeno?
No contexto do cosmos, nós somos pequenos.
Somos homenzinhos morando num grão de poeira flutuando numa
imensidão desconcertante.
Mas não pensamos pequeno.
Esta perspectiva cósmica é relativamente nova.
Meros quatro séculos atrás nosso mundinho não fazia ideia do
alcance do cosmos.
Não havia telescópios.
O universo era só o que se podia ver a olho nu.
Em 1599 todos "sabiam" que o Sol, os planetas e as
estrelas eram só luzes no céu que giravam em torno da Terra e que éramos o
centro do nosso pequeno universo.
Um universo feito para nós.
Só havia um homem no planeta todo que imaginava um cosmos infinitamente
maior.
E como ele passou a véspera do ano-novo de 1600?
Preso, claro.
Tem uma época na nossa vida em que percebemos que não somos
o centro do universo e que pertencemos a algo muito maior do que nós.
Faz parte do amadurecimento. E assim como acontece com cada
um de nós aconteceu também com a nossa civilização, no século 16.
Imagine um mundo antes dos telescópios em que o universo era
só o que se via a olho nu. Era "óbvio" que a Terra não se movia e que
tudo nos céus, o Sol, a Lua, as estrelas, os planetas giravam em torno de nós.
Então, um astrônomo e padre polonês chamado Copérnico fez
uma proposta radical: a Terra não era o centro. Era só mais um planeta e, assim
como eles girava em torno do Sol.
Muitos, como o protestante Martinho Lutero consideravam essa
ideia uma afronta às Escrituras. Estavam horrorizados. Porém, para um homem Copérnico
não tinha ido longe o bastante. Seu nome era Giordano Bruno e era um rebelde
nato.
Ele ansiava sair daquele pequeno universo. Mesmo quando era
monge em Nápoles era um peixe fora d'água. Nessa época, não havia liberdade de
pensamento na Itália.
Mas Bruno queria saber tudo sobre a criação de Deus. Ele
ousou ler os livros banidos pela Igreja. E essa foi a sua desgraça.
Em um deles, um romano antigo um homem que estava morto há
mais de 1500 anos falava de um universo maior. Um universo tão sem limites quanto
sua definição de Deus.
Lucrécio pedia ao leitor para se imaginar à beira do
universo atirando uma flecha para fora dele. Se a flecha continuar, então o
universo é maior do que você imaginava ser a beira. Mas se a flecha não
continuar e, digamos, bater num muro então esse muro fica além da beira que você
imaginava. Se você subir nesse muro e atirar mais uma flecha
você tem as mesmas duas possibilidades: ou ela ficará para
sempre no espaço ou baterá numa fronteira na qual você pode subir e atirar
outra flecha.
De qualquer forma, o universo não tem limites.
O cosmos deve ser infinito.
Isso fez sentido para Bruno.
O deus que ele adorava era infinito logo, pensava ele, como
poderia sua criação não o ser?
Foi o último emprego fixo que ele teve.
Então, aos 30 anos ele teve a visão que selou seu destino. Neste
sonho, ele acordou num mundo dentro de uma tigela de estrelas. Este era o
cosmos da época de Bruno.
Ele vivenciou um momento repugnante de medo como se o chão estivesse
se desfazendo mas conseguiu criar coragem. Eu abri minhas asas e subi confiante
para o espaço flutuando através do infinito, deixando para trás o que outros se
esforçavam para ver de longe. Aqui, não havia cima nem baixo, nem beira, nem
centro.
Eu vi que o Sol era só mais uma estrela e que as estrelas eram
outros sóis, cada uma acompanhada de outras Terras, como a nossa.
A revelação dessa imensidão foi como se apaixonar.
Bruno tornou-se um evangelista espalhando o "evangelho do
infinito" pela Europa.
Imaginava que outros amantes de Deus abraçariam naturalmente
essa visão mais gloriosa da Criação. Como eu fui idiota!
Ele foi excomungado pela Igreja em seu país natal, expulso
pelos calvinistas da Suíça e pelos luteranos alemães.
Bruno aceitou dar uma palestra em Oxford, na Inglaterra. Enfim,
pensou ele, uma chance de compartilhar sua visão com uma plateia de colegas.
Eu vim apresentar uma nova visão do cosmos.
Copérnico tinha razão de achar que nosso mundo não era o
centro do universo.
A Terra gira em torno do Sol.
É um planeta, como qualquer outro.
Mas Copérnico era só a aurora eu lhes trago o nascer do sol!
-Ultrajante!
-As estrelas são outros sóis feitas da mesma substância que
a Terra.
E eles têm suas próprias Terras aquosas com plantas e
animais tão nobres quanto os nossos.
Você é louco ou simplesmente ignorante?
Todos sabem que só existe um mundo!
O que todos sabem está errado!
Nosso Deus infinito criou um universo sem limites com um número
infinito de mundos!
Vocês não leem Aristóteles no seu país? Ou até mesmo a Bíblia?
Imploro: rejeitem antiguidade, tradição, fé e autoridade!
Vamos recomeçar por duvidar do que achávamos ter sido
provado.
-Herege!
-Infiel!
Ou Deus é pequeno demais!
Um homem mais sábio teria aprendido a lição. Mas Bruno não
era assim. Ele não conseguia manter sua visão do cosmos para si mesmo.
Apesar do fato que a pena por fazer isso no mundo dele era a
forma mais perversa de punição cruel e incomum.
Na época de Giordano Bruno não havia separação de Igreja e
Estado e liberdade de expressão não era um direito sagrado. Expressar uma ideia
diferente da crença tradicional tinha consequências terríveis.
Irresponsavelmente, Bruno voltou à Itália. Vai ver ele
sentiu saudades de casa mas ele deveria saber que seu país era um dos lugares
mais perigosos da Europa para ele.
A Igreja Católica tinha um sistema de tribunais conhecido
como "Inquisição".
Seu único propósito era investigar e atormentar todos os que
ousavam pensar diferente deles.Não demorou muito até Bruno cair nas garras da
"polícia do pensamento".Este nômade que adorava um universo infinito ficou
confinado por oito anos.
Apesar de interrogatórios inexoráveis ele se recusava a
renunciar aos seus ideais.
Por que a Igreja se esforçava tanto para atormentar Bruno?
Do que eles tinham medo?
Se Bruno estivesse certo os livros sagrados e a autoridade
da Igreja estariam abertos a questionamentos. Finalmente, os cardeais da
Inquisição deram o veredito.
Você foi considerado culpado de questionar a Trindade e a
divindade de Jesus Cristo de crer que a ira de Deus não é eterna e que,
portanto, todos seriam salvos de declarar a existência de outros mundos.
Todos os livros que você escreveu serão queimados na Praça
de São Pedro.
Reverendíssimo padre, os oito anos de confinamento deram-me
muito tempo de refletir.
Então, você se arrepende?
Meu amor e reverência pelo Criador inspira em mim a visão de
uma criação infinita.
Você vai ser entregado para o governador de Roma para sofrer
a punição apropriada para aqueles que não querem se arrepender. Talvez você
esteja com mais medo de entregar esse julgamento do que eu de ouvi-lo.
Bruno foi queimado vivo em praça pública.
Dez anos depois do martírio de Bruno Galileu olhou por um
telescópio pela primeira vez e viu que Bruno sempre teve razão. A Via Láctea
era feita de infinitas estrelas invisíveis a olho nu e algumas daquelas luzes
no céu eram outros mundos.
Bruno não era nenhum cientista. Sua visão do cosmos foi um
palpite porque ele não tinha evidências. Como muitos palpites, ele poderia ter
errado. Mas assim que a ideia foi propagada deu a outros um alvo a se mirar, nem
que fosse para refutá-la.
Bruno olhou a vastidão do espaço mas ele não fazia ideia da
imensidão desconcertante do tempo.
Como podemos nós, que raramente vivemos mais de um século alcançar
a vasta extensão de tempo que é a história do cosmos?
O universo tem 13,8 bilhões de anos.
Para imaginar todo o tempo cósmico vamos reduzi-lo a um ano
de calendário.
O calendário cósmico começa em 1º de janeiro, o nascimento
do universo.
Aqui temos tudo o que aconteceu desde então, até agora o
que, neste calendário, é a meia-noite de 31 de dezembro.
Nesta escala, cada mês representa mais ou menos um bilhão de
anos.
Cada dia representa quase 40 milhões de anos.
Vamos voltar o máximo que podemos até o primeiríssimo
momento do universo.
Dia 1º de janeiro. O Big Bang.
É o tempo mais antigo que podemos ver.
Por enquanto.
Nosso universo todo nasceu de um ponto menor do que um único
átomo.
O próprio espaço explodiu num fogo cósmico lançando a expansão
do universo e dando início a toda a energia e toda a matéria que conhecemos
hoje.
Eu sei que parece loucura mas há evidências fortes dando
apoio à Teoria do Big Bang. Entre elas, o tanto de hélio no cosmos e o brilho
de ondas de rádio que restaram da explosão.
Conforme se expandia, o universo resfriava e foi trevas por
200 milhões de anos.
A gravidade juntava gases e os aquecia até as primeiras
estrelas nascerem no dia 10 de janeiro.
No dia 13 de janeiro estas estrelas formaram as primeiras
pequenas galáxias.
Estas se juntaram para formar galáxias maiores Inclusive a
nossa Via Láctea que se formou há uns 11 bilhões de anos no dia 15 de março do
ano cósmico.
Centenas de bilhares de sóis.
Qual deles é o nosso?
Ele ainda não nasceu.
Ele nascerá das cinzas de outras estrelas.
Está vendo essas luzes brilhando feito paparazzi?
Cada uma delas é uma supernova a morte ardente de uma
estrela gigante.Estrelas morrem e nascem em lugares assim um berçário estelar. Elas
se condensam como gotas de chuvas de nuvens gigantes de gás e poeira. Elas
esquentam tanto que os núcleos dos átomos se fundem profundamente para fazer o
oxigênio que respiramos o carbono dos nossos músculos, o cálcio dos nossos
ossos o ferro do nosso sangue, tudo isso foi criado nos corações ardentes de
estrelas mortas.
Você, eu, todo mundo.
Nós somos feitos de poeira das estrelas.
Essa "poeira" é reciclada e enriquecida
repetidamente através de gerações de estrelas.
Quanto tempo até o nascimento do nosso sol?
Bastante tempo. Ele só vai começar a brilhar daqui a 6 bilhões
de anos. Nosso sol nasce em 31 de agosto, no calendário cósmico. Há 4,5 bilhões
de anos. Assim como os outros mundos do nosso Sistema a Terra foi formada de um
disco de gás e poeira
orbitando o Sol recém-nascido. Repetidas colisões produziram
uma bola crescente de detritos.
Está vendo aquele asteroide? Esse aí, não. Aquele outro ali.
Nós existimos porque a gravidade do asteroide vizinho desse desviou-o um centímetro
para a esquerda. Que diferença faria um centímetro na escala do Sistema Solar?
Espere só. Você já vai ver.
A Terra levou uma surra no primeiro bilhão de anos. Fragmentos
de detritos colidiram e se aglutinaram até formarem a nossa lua.
A Lua é uma lembrancinha dessa era violenta. Se você
estivesse na Terra dessa época a Lua seria mil vezes mais brilhante. Ela ficava
dez vezes mais próxima presa num abraço gravitacional muito mais íntimo. Conforme
a Terra foi esfriando, mares foram se formando. As marés eram mil vezes mais
fortes.
Com o passar das eras a fricção das marés foi afastando a
Lua.
A vida começou mais ou menos aqui no dia 21 de setembro há
3,5 bilhões de anos no nosso pequeno mundo.
Ainda não sabemos como a vida começou. Pode até ter vindo de
outra parte da Via Láctea. A origem da vida é um dos maiores mistérios da ciência.
Essa é a vida se criando evoluindo todas as receitas bioquímicas
para suas atividades incrivelmente complexas.
No dia 9 de novembro, a vida respirava mexia-se, comia, respondia
ao seu ambiente.
Devemos muito àqueles micróbios pioneiros.
Ah, sim, mais uma coisa: eles também inventaram o sexo.
O dia 17 de dezembro foi um dia e tanto. A vida marinha sofreu
uma guinada explodindo com uma diversidade de plantas e animais maiores.
O Tiktaalik foi um dos primeiros a tentar a vida na terra. Deve
ter sido como visitar outro país.
Florestas, dinossauros, pássaros, insetos, todos evoluíram na
última semana de dezembro.
A primeira flor floresceu no dia 28 de dezembro. Conforme
estas florestas antigas cresciam e morriam e caíam para debaixo da terra seus
restos se transformaram em carvão. Trezentos milhões de anos depois nós
queimamos esse carvão para dar poder e pôr em perigo nossa civilização.
Lembra-se daquele asteróide na formação do Sistema Solar?
O que foi desviado um pouco para a esquerda?
Lá vem ele.
São 6h24 da manhã, no dia 30 de dezembro no calendário cósmico.
Há mais de 100 milhões de anos, dinossauros dominavam a Terra e nossos
ancestrais, pequenos mamíferos escondiam-se, com medo. O asteroide mudou isso
tudo. Se ele não tivesse sido desviado não teria atingido a Terra. Os
dinossauros poderiam ainda estar vivos e nós, não.
É um bom exemplo da contingência extrema, da natureza
acidental, da existência.
O universo já tem mais de 13,5 bilhões de anos e ainda
nenhum sinal de nós. No vasto oceano de tempo que este calendário representa nós
só evoluímos dentro da última hora do último dia do ano cósmico.
São 23 horas, 59 minutos e 46 segundos. Nossa história documentada
só ocupa os últimos 14 segundos e todas as pessoas de que você já ouviu falar viveu
nesta pequena época. Todos os reis e batalhas, migrações e invenções, guerras e
amores, tudo o que existe nos livros de História aconteceu nos últimos segundos
do calendário cósmico.
Mas para explorar um momento tão breve no tempo cósmico teremos
que mudar de escala. Nós somos novos no cosmos. A nossa história só começa na última
noite do ano cósmico.
São 21h45, na véspera de ano-novo. Há 3,5 milhões de anos nossos
ancestrais, os seus e os meus deixaram estes rastros.
Nós nos levantamos e seguimos outro caminho. Assim que
viramos bípedes nossos olhos não estavam mais voltados ao chão. Agora, nós
somos livres para olhar para cima e imaginar. Pela maior parte da existência
humana digamos, pelas últimas 40 mil gerações éramos nômades, vivendo em bandos
de caçador-coletores. Fazendo ferramentas, controlando o fogo dando nomes às
coisas.
Tudo isso durante a última hora do calendário cósmico.
Para descobrir o que vem depois teremos que mudar de escala para
ver o último minuto da última noite do ano cósmico.
São 23h59. Somos tão jovens na escala de tempo do universo que
só fomos começar a pintar imagens nos últimos 60 segundos do ano cósmico meros
30 mil anos atrás.
Foi nessa época que inventamos a astronomia. De fato, todos
descendemos de astrônomos. Nossa sobrevivência dependia de ler as estrelas para
prever a chegada do inverno e a migração das manadas selvagens.
E então, há mais ou menos 10 mil anos começou uma revolução no
nosso jeito de viver. Nossos ancestrais aprenderam a dar forma a seu ambiente domesticando
plantas e animais selvagens cultivando terras e se estabelecendo.
Isso mudou tudo. Pela
primeira vez na nossa história tínhamos mais do que podíamos carregar. Precisávamos
de um jeito de manter um controle.
A 14 segundos da meia-noite ou há mais ou menos 6 mil anos nós
inventamos a escrita. E logo estávamos registrando mais do que punhados de grãos.
A escrita nos permitia gravar pensamentos e propagá-los no espaço e no tempo. Pequenas
marcações numa tábua de barro tornaram-se um modo de vencer a mortalidade.
Isso abalou o mundo. Moisés
nasceu sete segundos atrás. Buda, há seis segundos.
Jesus, há cinco.
Maomé, há três. Não
faz nem dois segundos que, pelo bem ou pelo mal as duas metades do mundo se
descobriram. E foi só no último segundo do calendário cósmico que começamos a
usar a ciência para revelar os segredos e leis da natureza.
O método científico é tão poderoso que em meros quatro séculos
ele nos levou do primeiro uso do telescópio por Galileu a deixar nossas pegadas
na Lua. Permitiu-nos a olhar através do espaço e tempo para descobrir onde e
quando estamos no cosmos.
Nós somos uma maneira de o cosmos se descobrir. Carl Sagan
guiou a primeira viagem de "Cosmos" uma geração atrás. Ele foi o
comunicador de ciência mais bem-sucedido do séc. 20. Mas, em primeiro lugar, ele
era um cientista. Carl contribuiu enormemente para o nosso conhecimento dos
planetas. Ele previu corretamente a existência de lagos de metano em Titã, a
lua gigante de Saturno. Ele mostrou que a atmosfera do início da Terra deve ter
contido poderosos gases de efeito estufa.
Ele foi o primeiro a entender que mudanças sazonais em Marte
tinham a ver com poeira transportada pelo vento. Carl foi pioneiro na busca por
vida e inteligência extraterrestre. Ele teve papel principal em todas as missões
para explorar o Sistema Solar durante os primeiros 40 anos da Era Espacial. Mas
ele não fez só isso.
Este é o calendário de Carl Sagan, de 1975.
Quem eu era nessa época?
Eu era só um jovem de 17 anos, do Bronx que sonhava em ser
cientista e, de algum jeito, o astrônomo mais famoso do mundo achou tempo de me
convidar para Ithaca, Nova York para passar um sábado com ele. Eu me lembro
daquele dia de neve como se fosse ontem. Ele me encontrou no ponto de ônibus e
me mostrou seu laboratório na Universidade de Cornell.
Carl colocou a mão atrás de sua mesa e assinou este livro
para mim.
"Para Neil, um futuro astrônomo. Carl."
No fim do dia, ele me levou ao terminal a neve estava mais
forte. Escreveu o telefone de sua casa num pedaço de papel e disse: "Se o ônibus
não sair, ligue para mim. Passe a noite na minha casa, com a minha família."
Eu já sabia que queria ser cientista mas, naquela tarde, eu aprendi com o Carl o
tipo de pessoa que eu queria me tornar. Ele estendeu a mão para mim e para vários
outros inspirando muitos de nós a estudar, lecionar e fazer ciência.
A ciência é um empreendimento de cooperação abrangendo gerações.
É passar a tocha de professor a aluno e a professor. Uma comunidade de mentes, estudando
a antiguidade e a caminho das estrelas.
Agora, venha comigo. A nossa jornada mal começou. Semana que
vem, nossa incrível jornada continua. Bem-vindos à Terra, 4 bilhões de anos atrás,
mas se você quer ver "Cosmos", você tem duas opções. Este é o incrível
poder de mudança de forma da Seleção Natural.
Veja seu mundo como nunca antes.
É a maior história já contada pela ciência.
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Para quem desejar assistir a série, tem disponível para download em torrente com legenda e também dublado.
Em breve postarei o EP 2 aqui!